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Hoje, 9 de julho, lembramos o dia do início oficial da Revolução Constitucionalista de 1932

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 02h00

A unidade nacional parece um processo vitorioso em alguns países, como Portugal, e fracassada em outros, como Espanha. No Brasil, ela é o meio caminho entre Lisboa e Madri.

Hoje, 9 de julho, lembramos o dia do início oficial da Revolução Constitucionalista de 1932. Por um projeto do deputado estadual Guilherme Gianetti sancionado pelo governador Mário Covas, a data é feriado estadual desde 1997. 

A rigor, faz 85 anos que nenhuma parte do País pega em armas contra o governo central. Tivemos revoltas e massacres no período, mas foram iniciativas localizadas como o bombardeio do navio que levava o presidente Carlos Luz (1955), as rebeliões de Jacareacanga (1956) contra o governo de Juscelino Kubitschek ou o golpe de 1964. Revoltas organizadas de um Estado contra o governo, de fato, encerraram-se em 1932. 

O Brasil não gosta da expressão guerra civil, que povoa a experiência histórica de Colômbia, Espanha, Estados Unidos e outros. Porém, foram guerras civis a Guerra dos Farrapos (RS), a Cabanagem (PA), a Sabinada (BA), a Balaiada (MA), a Praieira (PE), a Federalista (RS) e tantas outras ao longo da tumultuada história nacional. O notável é que quase todas as rebeliões locais, sempre derrotadas, geram feriados e focos de orgulho. É o caso do 20 de setembro gaúcho e do 9 de julho paulista. Algumas lideranças do Pará lutam para tornar feriado o 7 de janeiro (data da Cabanagem) e não mais o feriado de 15 de agosto (dia da adesão do Grão-Pará ao Brasil). 

Como toda derrota, o amargor do resultado pode ser atenuado por construções, como “vitória moral” ou “derrota nas batalhas e êxito nos ideais”. São formas suaves de dizer que o governo central venceu todos os movimentos desde a colônia. Não haveria Brasil se isso não tivesse ocorrido ou, pelo menos, não um Brasil de 8,5 milhões de km². 

Disse, ao principiar, que a Espanha era um modelo difícil de unidade. Persistem línguas distintas, regionalismos arraigados e já houve até movimentos armados pela separação. No Brasil, a união nacional é declarada no primeiro artigo da nossa Constituição vigente: “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal (...)”. Nosso país é uma república e se organiza de forma federativa. Movimentos separatistas são, rigorosamente, ilegais. Jogo encerrado? Não! O que se discute é o grau da federação e seu funcionamento mais equilibrado. Continuamos debatendo o que os norte-americanos chamaram de “artigos federalistas” que alguns políticos do século 18 lançaram lá para discutir o equilíbrio entre poder central e poderes locais. As questões continuam em aberto: em que grau um governo central garante a integridade e é útil e quando ele atrapalha o que realmente importa, a vida do cidadão nas unidades menores. 

O choque parece inevitável. Eu moro em uma cidade. A política local está mais próxima de mim. Em termos práticos, a microfísica de uma ciclovia em frente ao meu prédio é mais diretamente alvo da minha atenção do que o estabelecimento do mar territorial de 200 milhas marítimas feito no governo Médici. Na geopolítica e na estratégia, a declaração de soberania sobre esse trecho de oceano é infinitamente maior do que a ciclovia, todavia, insisto, meu olho está aqui e não nos penedos de São Pedro e São Paulo. Sei que Darwin desembarcou ali e que o local deve ser paradisíaco para mergulhos, no entanto, volto ao ponto: a ciclovia me toca mais. 

O jogo das identidades locais e centrais continua. É o jogo da seleção do Brasil que mexe com o País e não o da seleção do Estado. É a Bandeira Nacional que nos toca mais do que a estadual ou municipal. O hino brasileiro tem mais conhecedores pelo País do que os hinos estaduais ou municipais. Os símbolos nacionais congregam e emocionam, os locais menos. Meu passaporte é brasileiro, porém os locais que me tocam são memórias de juventude de lugares e ruas onde nasci e cresci.

 

Talvez seja sempre o jogo da memória que aparece na animação Ratatouille (Brad Bird, 2007). O severo crítico gastronômico Anton Ego adquiriu toda a empáfia e savoir-faire da Cidade-Luz. Porém, ao experimentar o ratatouille no restaurante, a memória afetiva quebra décadas de frieza analítica e ele se vê transportado para seu local de nascimento e infância. A memória infantil e local quebrou todas as máscaras e defesas. 

Pátria vem de pai e assim a chamamos em inglês: fatherland (o idioma também reconhece motherland e homeland). Pai dá identidade e limite na tradição psicanalítica. Passaremos a vida dialogando com o jogo identitário entre mãe e pai, afeto e limite. A pátria, feminina, é o pai da identidade e do limite; o local municipal e estadual é o masculino mãe que se encontra mais próximo. Um me deu sobrenome e outra, papinha, para dizer o mínimo. Nunca superamos essa ambiguidade do ser. Assim, feliz 9 de julho para todos nós, brasileiros e paulistas. Celebremos a liberdade da pátria. Tanto a de São Paulo como a do Brasil. Ambas nasceram perto do Riacho do Ipiranga e juntaram a rebeldia paulista com o projeto nacional de não aceitar canga. Estamos precisando repetir muito que somos brasileiros. Bom domingo a todos vocês! 

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