SP correu para ver Isabelle Huppert

A atriz francesa Isabelle Huppert, 48 anos no próximo dia 16, apresenta hoje ao público paulista a mais nova integrante de sua notável galeria composta de personagens psicóticas, assassinas ou sexualmente reprimidas. De hoje a quinta, às 21h, ela viverá uma mulher a caminho do suicídio em 4.48 Psychose, último texto da dramaturga inglesa Sarah Kane. Durante quase duas horas, Huppert irá permanecer praticamente imóvel no centro do palco - em alguns momentos, fará um leve meneio de cabeça, ou um sutil arquear de sobrancelhas. Para ficar diante da estrela estática, a cidade correu: os cerca de mil ingressos colocados à venda esgotaram-se em uma hora e meia, diante de filas atônitas formadas em todas as unidades do Sesc. Como consolo aos que não poderão ver a atriz em cena, o Cinesesc promove uma mostra com quatro de seus filmes. A atriz chegou ontem em um vôo da Air France, saído de Paris, que pousou em Cumbica às 6h30 da manhã. Às dez em ponto, depois de uma rápida passagem pelo hotel Crowne Plaza, Isabelle já estava no palco do Sesc ensaiando sob as mãos rígidas do diretor Claude Régy. Interrompeu os ensaios às 12h30 para conversar meia hora com os repórteres de jornais e outra meia hora com as televisões. Em seguida, almoçou rapidamente ao lado do teatro para retomar, às 15h, mais uma maratona de ensaios. E à noite mostraria o espetáculo em uma sessão fechada para os convidados do Sesc e do consulado da França. A seguir, os principais trechos da coletiva em que, acompanhada pelo diretor Claude Régy, a atriz surpreendeu os jornalistas com declarações como "o ator não é um criador", "não sofro para interpretar, este é o meu trabalho" e "Bette Davis foi a maior atriz da história, ela pertenceu a uma época em que as mulheres más eram realmente más, hoje as más também são boas". Por que você optou por apresentar este texto mantendo-se imóvel no centro do palco? Isabelle Huppert - Isto se deve a uma escolha da direção, que se revelou acertada. Prefiro dizer que estou estática, e não imóvel. Às vezes a personagem mexe os braços ou a cabeça, em outras vezes mexe as mãos, mas não os braços. Procuro concentrar toda a tensão desta mulher nos dedos de sua mão. O ato de interpretar, para o ator, não se define, acontece. Cabe ao diretor a função de raciocinar sobre o espetáculo. O ator não é um criador. Por que vocês optaram por não legendar todo o espetáculo? Claude Régy - A legendagem é uma questão muito difícil nesta montagem. Como tudo é transmitido por meio do rosto da intérprete, não queria que o público desviasse os olhos para as legendas. Optamos por legendar apenas alguns trechos. E as legendas não são traduções literais do que está sendo dito, elas funcionam como títulos, ou referências, do que será abordado em seguida. É uma excelente oportunidade para o público se libertar da obsessão de entender o sentido das coisas. Sarah Kane escrevia enigmas, e nós sabemos que os enigmas estão carregados de sentido, embora ninguém saiba o que eles querem realmente dizer. Seus personagens parecem ter sempre alguma coisa a esconder. A senhora construiu sua carreira pensando neste tipo específico de personagem? Isabelle - Que levante a mão quem não tiver nada a esconder. Acho que os diretores já pensam automaticamente em mim, se o personagem tem algo a esconder. Eu sou muito preguiçosa, então para mim é mais fácil interpretar uma personagem que esconde do que uma que se revele. Foi muito fácil fazer Professora de Piano, aquela mulher cheia de contorções psicológicas. Difícil foi fazer a personagem de meu último filme, Tempo dos Lobos, em que tive de lidar com sentimentos reais, como a fome, frio, medo e cansaço. A senhora se considera a Bette Davis do cinema atual? Isabelle - Cada atriz se parece com a sua época. Bette Davis foi a maior atriz da história. Mas agora as fronteiras entre o bem e o mal evoluíram. Tudo pode ser interpretado de forma mais ampla e ambígua. Nos filmes e nas peças de teatro atuais há menos maniqueísmos. Antes, uma mulher má era má, a má hoje pode ser boa por algum momento. O que a atraiu tanto neste texto? Isabelle - É uma peça impactante, um texto diferente dos habituais. Não se trata de um poema, de uma adaptação, nada disso. É um texto pronto para um ator. Sarah Kane tinha um voz diferente, eu não pude recorrer às referências tradicionais que eu tinha no teatro. Claude Régy - Ela conseguiu renovar a maneira de fazer teatro. Em sua breve carreira, escreveu cinco peças e, em cada uma delas, apresentou uma proposta diferente, não só de linguagem, mas de carpintaria teatral. Como é interpretar uma mulher que está prestes a cometer suicídio? É doloroso compor esta personagem? Isabelle - Não existe para mim nenhum preço a pagar, nenhum custo pessoal. Este é o trabalho do ator. Claro que há ecos pessoais de angústia, mas eles nunca estão onde você julga que eles estejam. Sendo assim, não vale a pena falar deles. Depois de quase duas horas imóvel no palco, envolvida em um texto notoriamente depressivo, o que a senhora faz para se recompor? Isabelle - Tomo uma cerveja e fumo um cigarro. Não acredito neste misticismo que cerca a profissão do ator. Quem sofre não sou eu, e sim a personagem. O que a senhora diria a Sarah Kane hoje, se isso fosse possível? Isabelle - Um amigo me disse que se ela tivesse visto o espetáculo, talvez não tivesse se suicidado. É uma das coisas mais generosas que já ouvi. Ela não esteve sempre bem, mas, até onde pôde, defendeu a vida. 4.48 Psychose - De Sarah Kane com Isabelle Huppert. Sesc Anchieta: Rua Dr. Vila Nova, 245. De hoje a quinta, às 21h, ingressos esgotados. Mostra Isabelle Huppert no Cinesesc - Rua Augusta, 2075, tel.: 3082-0213. De hoje a quinta, às 21h, grátis. Hoje, Negócios à Parte; amanhã, A Jovem Travestida e quinta Madame Bovary.

Agencia Estado,

25 de fevereiro de 2003 | 16h32

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