Souto de Moura e a consagração do minimalismo

Prêmio Pritzker reforça a tendência das obras frugais

Christopher Hawthorne, do Los Angeles Times, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2011 | 00h00

Chegou o momento de um dos ritos da primavera da arquitetura: ler as folhas de chá do Prêmio Pritzker. Então, o que extraímos da notícia de que o arquiteto português Eduardo Souto de Moura, de 58 anos, mal conhecido fora da profissão, foi nomeado na segunda-feira o vencedor do Pritzker deste ano, o mais cobiçado galardão da área? Em si, o prêmio parece mais claramente homenagear o inabalável compromisso de Souto de Moura ao longo de sua carreira com uma marca de arquitetura minimalista dura, vigorosa. O júri de sete membros do Pritzker - que este ano incluiu Renzo Piano, Glenn Murcutt e Alejandro Aravena - salientou que o trabalho recente de Souto de Moura continua muito próximo do espírito e da abordagem de seus primeiros projetos, dos anos 1980, que foram contra o filão do pós-modernismo decorativo então em alta.

Quando um jovem arquiteto, observou o júri, Souto de Moura "era nitidamente fora de moda... Quando olhamos hoje para trás, os primeiros prédios podem parecer normais, mas devemos lembrar de como eles foram realmente ousados na época". Num sentido mais amplo, a escolha deste ano significa que por três anos seguidos o júri do Pritzker premiou obras que são formalmente muito frugais, reservadas até, para não mencionar assentadas num contexto regional específico. Peter Zumthor, da Suíça, vencedor de 2009, e o duo japonês Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, premiados do ano passado, partilham com Souto de Moura a abordagem precisa, reticente, milhas distantes da exuberante construção de formas e o alcance global de arquitetos mais famosos como Jean Nouvel (que venceu em 2008), Zaha Hadid (2004) ou Frank Gehry (1989).

Os três agraciados mais recentes foram elogiados sobretudo por obras executadas em seus próprios países de origem, embora Sejima e Nishizawa, cuja empresa em Tóquio chama-se Sanaa, venham projetando edifícios por todo o mundo ultimamente. Zumthor, por sua vez, está trabalhando num projeto de longo prazo para o Los Angeles County Museum of Art, embora esse projeto esteja no estágio inicial.

Na premiação deste ano há ecos também do Pritzker de 2006 que foi para o brasileiro Paulo Mendes da Rocha. Assim como Mendes da Rocha operou por muito tempo na sombra do mais famoso arquiteto do Brasil, Oscar Niemeyer, hoje com 103 anos, Souto de Moura é frequentemente mencionado com o do grande arquiteto português Alvaro Siza, que venceu o Pritzker de 1992.

Souto de Moura trabalhou no escritório de Siza de 1975 a 1979, e os arquitetos colaboraram no pavilhão português na World Expo 2000 em Hannover, Alemanha. Apesar da louvação do júri à consistência do corpo da obra de Souto de Moura, alguns de seus primeiros prédios revelam uma dívida à arquitetura de Siza que esmaeceu com o tempo.

Souto de Moura, que como Siza trabalha no Porto, a segunda maior cidade de Portugal, foi amiúde descrito como arquiteto "neomiesiano", em referência ao modernista supremamente influente Ludwig Mies van der Rohe. Mas os projetos mais conhecidos de Souto de Moura não são executados no vidro e aço tão estreitamente associado a Mies; ele prefere trabalhar com concreto, pedra, tijolo, cobre e madeira. E seus edifícios são com frequência animados por manchas de cor.

O arquiteto talvez seja mais bem conhecido por seu Estádio Municipal de Braga, que é encostado a uma pedreira de um lado e exibe um par de telhados imensos suspensos dramaticamente sobre as arquibancadas.

Concluído em 2003, ele foi um elemento inicial numa ambiciosa onda de arquitetura arrojada de estádios que culminou com o Estádio Olímpico de 2008 em Pequim, projetado pela empresa suíça Herzog & Meuron.

O museu Paula Rego, perto de Lisboa, concluído em 2009, trouxe a Souto de Moura uma nova rodada de aplausos, mas insuficiente para deixá-lo mais perto de ser um nome familiar. O museu é envolvido por uma capa exterior de concreto quase sem janela de cor salmão que lembra - mais que Siza ou Mies - a obra de Louis Kahn. Uma casa de 1994 em Bom Jesus, Portugal, também exibe formas vigorosas de concreto.

A identificação de tendências pelo Pritzker pode ser um negócio traiçoeiro. Particularmente, se houver uma rotatividade significativa nos membros do júri, que tem sido bastante estável (e avassaladoramente masculino) nos últimos anos, a escolha de 2012 poderia sugerir um novo foco: na arquitetura digital fluida, por exemplo, ou num design humanitário socialmente informado. Ou em obras preocupadas com design urbano e com a cidade numa escala mais ampla.

Por enquanto, porém, o júri do Pritzker está aferrado à arquitetura que visa a uma certa intemporalidade e é teimosamente, habilmente confinada a seus elementos fundamentais.

/TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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