Marcos Arcoverde/AE
Marcos Arcoverde/AE

Soul sem escândalos

Se no sábado passado em certos momentos Amy Winehouse beirou o amadorismo na estreia em Florianópolis - em que até tomou vaia de parte dos fãs por causa de suas constantes interrupções e ausências do palco -, os americanos Mayer Hawthorne e Janelle Monáe não brincaram em serviço. Portanto, os fãs da diva britânica devem chegar mais cedo hoje ao Anhembi. Não só para constatar o imenso carisma de Mayer, a energia nuclear de Janelle, as ótimas bandas de ambos e sua música tão boa quanto a da estrela maior da noite, mas para não sair com a sensação de ressaca. Antes deles ainda se apresentam atrações locais de boa reputação na cena underground: o coletivo Instituto e a dupla André Frateschi e Miranda Kassin, ela que virou cult na noite paulistana fazendo cover de Amy.

, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

Embora com o show da principal atração valendo pela metade, o Summer Soul Festival - iniciativa da Mondo Entretenimento, exclusivamente para o Brasil - é um indício de mais uma temporada de grandes eventos internacionais, como foi 2010. O ano começou muito bem em termos de programação, em Floripa, Rio e Recife (e agora aqui), com essas atrações contemporâneas e inéditas no País. E apostando na tendência crescente do neo soul.

Algo em comum. Na estreia do festival em Floripa, Mayer e Janelle foram ligeiramente prejudicados por falhas no sistema de som, que ou estava muito alto ou abafado, mas não comprometeram tanto o bom resultado. Com algumas influências em comum ou aproximadas - Marvin Gaye, Sam Cooke, Michael Jackson, Stevie Wonder, Diana Ross & The Supremes, James Brown e todo o espectro rítmico e vocal dos elencos das lendárias gravadoras Motown e Stax - , Amy, Janelle e Mayer são fenômenos num tempo em que ter voz, afinação e personalidade são requisitos secundários no mundo pop.

Além de tudo, eles têm bom gosto no repertório e na sonoridade e são elegantes - sim, vamos desconsiderar as atitudes excêntricas de Amy, que tanto "chocam" os caretas. Ela tem charme, pedigree. Certos espectadores sem noção, que foram ao show pra ver "a louca" dar baixaria, saíram frustrados e infinitamente mais alterados do que ela.

Michael Stipe (R.E.M.), Neneh Cherry, Nina Simone, Cássia Eller, Tom Jobim, Tim Maia e outros ícones consideráveis fizeram shows antológicos com boas talagadas na cabeça. Nessa suposta fase "rehab" no Brasil, talvez tenha faltado a Amy doses de algum aditivo para se rasgar de emoção.

Janelle já parece ligada nos 220 volts e se Mayer e Amy soam um tanto retrô, ela tem ambições futuristas. Só comete dois deslizes no show conceitual: incluir uma canção lenta quase toda a capella (Smile, de Chaplin) e dar pinceladas numa tela durante uma outra. No mais, é uma turbina nervosa, que faz até desmanchar o topetão de tanto sacudir no apoteótico final com Tightrope.

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