''Soul Kitchen foi o meu trabalho mais difícil''

O premiado diretor Fatih Akin conta que filmar pensando no público lhe criou problemas que não havia enfrentado antes na sua obra como 'autor'

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2010 | 00h00

Há tempos Fatih Akin sonhava com a realização de um filme unindo dois de seus atores favoritos, Adam Bousdoukos e Moritz Bleibtreu. "O problema é que eles são semelhantes e, em todas as histórias, terminava tendo de optar por um ou outro. Dei-me conta de que a solução seria transformá-los em irmãos. E fiz Soul Kitchen." Mas esse não foi o único motivo pelo qual o mais turco dos diretores alemães da nova geração quis fazer o filme. Numa entrevista por telefone, de Hamburgo, ele conta que demorou dez anos para concretizar o projeto. Explica porque perseverou, quando teria sido mais fácil desistir.

"Meu melhor amigo, além de grego, era dono de restaurante. Houve uma época da minha vida em que, quando não estava no restaurante dele, estava na balada." Ele começou a escrever Soul Kitchen justamente visando a recuperar esse período. Revela que é seu trabalho mais pessoal, mas não autobiográfico. "É mais um filme de família. Minha mulher, meu irmão, meus amigos, todos de alguma forma participaram de Soul Kitchen." A mulher fez o casting, o irmão é um dos garçons, a aluna de um curso de cinema é a garçonete. Soul Kitchen conta a história desse sujeito que possui um restaurante em Hamburgo. Quando aumenta a clientela, seu irmão sai da cadeia e precisa de um emprego fixo. Ele vai trabalhar no Soul Kitchen, mas o emprego é de fachada. O dono tem esta namorada que foi para a China e ele resolve ir atrás. A partir daí, a vida interfere e as situações tomam novos rumos. O herói desespera-se, recupera-se.

Blues. Houve um crítico que definiu Soul Kitchen como comédia rasa. "Que pena! Para mim, é um filme humano, com personagens verdadeiros", define Akin. Em filmes como Contra a Parede, que lhe deu o Urso de Ouro no Festival de Berlim, Atravessando a Ponte - O Som de Istambul e Do Outro Lado, ele falou da sua ascendência turca, fazendo a ponte entre a Alemanha e a Turquia. Mas Akin não queria ficar preso às suas origens. A história do amigo grego surgiu quase como uma reação. Também não queria ligar-se a uma representação estereotipada da Grécia no cinema. Pensou em Grécia, vêm Zorba, o sirtaki. O restaurante grego de Soul Kitchen não é a típica taverna e a música... O diretor foi ao blues, o autêntico, o norte-americano. Por quê? "O blues, o soul, vêm do fundo da alma. Falam do sofrimento do povo negro. Na Grécia, na Turquia, na Alemanha existem excluídos que entendem o mesmo som do sofrimento. Essa música nos expressa, porque eu me coloco nela."

Tudo isso é verdadeiro, mas Akin só agora vai revelar por que, em definitivo, quis tanto fazer esse filme. "À medida que elaborava a história e convivia com os personagens, fui me envolvendo cada vez mais com a vitalidade e diversidade deles. Percebi que Soul Kitchen teria de ser diferente dos meus outros filmes. Os outros eram filmes de arte, de autor. Este eu queria que fosse para o público. Fiz Soul Kitchen pensando nos espectadores." Para o público que assiste ao filme, a experiência se revela prazerosa. Foi para ele? "Em termos. Tem gente que não acredita quando digo que foi meu filme mais difícil de fazer. O tempo todo eu ficava me interrogando sobre o público. Pensava em diferentes opções para contar a história, diferentes planos. Foi tudo muito sofrido e, ao mesmo tempo, estava cercado de gente que eu amo, num ambiente fraterno. Sofria, mas era um prazer masoquista (risos)."

Depois de filmar tanto no exterior (EUA, Turquia), Fatih Akin sentiu necessidade de voltar para casa e filmou em Hamburgo. "Aqui é meu lar, onde tenho minha família, meus amigos, minha vida afetiva e social." Ele buscou um local especial. Queria filmar na área industrializada da cidade. Escolheu a ilha de Williamsburg, onde encontrou o pavilhão que vira personagem da história. Akin diz que não sabia cozinhar um ovo. De repente, estava no meio de um restaurante, cercado de receitas (e pratos). Mas não quis fazer um filme de cozinha tradicional, daqueles em que a comida adquire conotação sexual.

"O sexo está presente no filme, mas eu queria fugir ao clichê da comida afrodisíaca. Quando incorporo a história do tempero, carrego nas tintas e cores, quase no limite da (auto)paródia." Fatih Akin admite estar numa boa fase, que se reflete no filme. "Não vivo para comer, mas comer é bom e viver é melhor ainda. Meu produtor de Do Outro Lado, que morreu após aquele filme, queria muito que eu fizesse Soul Kitchen. Gosto de acreditar que ele teria aprovado o resultado."

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