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Soul, jazz, hip-hop e a irmandade africana

O mestre etíope Mulatu Astatke e a homenagem ao rapper J.Dillo em shows para ver e dançar

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2011 | 00h00

Com belas imagens em preto e branco, música elaboradíssima e atuações impressionantes, os três ótimos filmes da série Timeless dedicados aos arranjadores e compositores são registros de concertos com 73 minutos de duração cada um, entremeados com poucos depoimentos e cenas de bastidores. Em comum, eles têm uma ligação pela influência que exercem sobre o hip-hop.

"Música de primeira grandeza é só o começo", diz Brian Cross, a respeito do que os filmes sobre o brasileiro Arthur Verocai, o etíope Mulatu Astatke e o americano James "Dilla" Vance têm em comum. "Mas principalmente grande música que foi subestimada, é enormemente influente e raramente vista ao vivo. Especialmente com o cuidado e a dimensão que demos a ela. Tivemos relações com todos os três músicos: estive na Etiópia para encontrar Mulatu, eu e Eric trabalhamos com Dilla e enquanto trabalhávamos no Brasilintime conversamos com Arthur."

Brasilintime - Batucada com Discos é um documentário que Cross dirigiu em 2002, registrando encontros inéditos em São Paulo de lendários bateristas brasileiros (Ivan "Mamão Conti", João Parahyba e Wilson das Neves) e americanos (Derf Reklaw, Paul Humphrey e James Gadson) e participações de DJs americanos e o brasileiro Nuts.

"É surpreendente como pouca gente ouviu falar de Mulatu, mesmo ele sendo um grande ídolo na Etiópia", diz o produtor. "Dilla é um grande herói para muitos, mas muita gente nunca notou a profundidade lírica e emocional de sua música até que Miguel escreveu aqueles arranjos para orquestra." Cross diz que espera conseguir financiamento para produzir o novo álbum de Verocai. "O Brasil precisa ouvi-lo. Agora ele está começando a ter o reconhecimento que merece. Fora do pequeno círculo de produtores, brasiliófilos e pesquisadores ela era desconhecido."

Os concertos realizados pela produtora Mochilla em Los Angeles para seus três novos filmes foram igualmente concorridos e envolveram "centenas de horas de trabalho duro", como diz o maestro Miguel Atwood-Ferguson, que conduziu a orquestra do concerto dedicado a Dilla e teve momentos brilhantes tocando viola nos outros dois. Como ele, vários músicos integraram as orquestras dos três concertos, mas cada um tem a sua peculiaridade.

Verocai e o vibrafonista etíope de alguma forma influenciaram o hip-hop americano. No caso de J. Dilla (ou Jay Dee) dá-se o inverso, tendo como referência o apreço do rapper por música clássica.

Violoncelo. Dilla morreu em 2005 aos 32 anos, vítima de uma doença relacionada ao lúpus, de causa desconhecida, e o concerto, intitulado Suite for Ma Dukes é dedicado também à mãe dele. Mrs. Yancey (Ma Dukes) foi quem deu o toque ao maestro sobre a predileção do filho por um instrumento específico na música clássica: o violoncelo. A parte inicial do espetacular concerto é baseada nesse aspecto, com predominância de cordas e sopros leves. De tema em tema, o ritmo vai ganhando corpo, como na suingada versão de Globstopper.

Mais adiante, vem o reforço de vocais poderosos como o de Dwele em Angel, e a comovente interpretação de Bilal para Reminisce, soul clássico na essência. No fim tudo vira festa dançante com a presença de Ma Dukes no palco. Afinal, como lembra Ferguson, a música de Dilla tinha a luminosidade da alegria.

Música de tradição etíope, jazz, funk e ritmos latinos são uma combinação bombástica que Mulatu Astatke realiza de maneira peculiar, com seu vibrafone e suas congas. Apesar das influências de James Brown e outras referências americanas e cubanas, ele diz que sempre pensa em sua música como sendo africana. Afinal, como ele bem lembra, eles são "os campeões" e todo esse amálgama rítmico negro que se espalha pelo mundo (seja na percussão brasileira ou cubana) é tudo contribuição do continente africano.

Mulatu é considerado o maior nome da música etíope surgido na segunda metade do século 20. Graduou-se nos estudos na Inglaterra e só foi gravar seu primeiro disco em Nova York nos anos 1960. Imerso no universo do jazz e da latinidade, lançou os volumes 1 e 2 de Afro-Latin Soul, em que mesclava ritmos, trazendo suas referências africanas. É isso o que se vê nesse vigoroso concerto filmado por B+. Difícil é assisti-lo sentado.

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