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''Sou um cineasta, não um juiz'', diz Bruno Dumont

Assim o francês fala sobre não ter sido bem mais incisivo em relação ao terrorismo, em O Pecado de Hadewijch

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

Homenageado do Festival do Rio que começa na semana que vem, Bruno Dumont desembarca no Brasil nos primeiros dias de outubro. Virá numa viagem rápida, para prestigiar a retrospectiva de seus filmes. São poucos, mas lhe garantem um lugar privilegiado no cinema ficcional - e autoral - contemporâneo. Dumont vai ministrar uma master class, como outro homenageado do Rio neste ano, o polonês Jerzy Skolimowski. Dificilmente deixará de repetirá o que disse ao repórter, em janeiro, durante os Encontros do Cinema Francês, que a Unifrance promove em Paris.

A entrevista foi centrada no longa O Pecado de Hadewijch, que estreia hoje em São Paulo. Ao longo de sua carreira, iniciada com A Vida de Jesus, em 1997, Dumont tem sido comparado ao mestre francês Robert Bresson. O cinema de ambos é seco, ascético. O de Bresson era ainda mais minimalista e um crítico chegou a dizer que o ideal do cineasta seria filmar seus atores (não profissionais) recitando, sem emoção, num fundo de parede branca, as falas que ele próprio escrevia. Com Bresson, Dumont tem em comum o tema da busca da graça, ou da transcendência. Dumont, porém, minimiza a influência de Bresson sobre sua arte e vida. Ou, melhor, nem a reconhece.

Raridade num país como a França - nasceu em Bailleul, em 1958 -, Dumont não é, nunca foi, cinéfilo. Não frequenta o cinema e não assiste aos filmes de outros diretores. Nem o uso que fazem das novas tecnologias lhe interessou quando ele próprio começou a usar o digital. Nada de copiar nem de recriar. Persegue a sua via, o seu estilo. Inspirado numa mística francesa que viveu há centenas de anos, Hadewijch conta a história de noviça que orientada pela madre superiora do convento, volta ao mundo para testar sua vocação. O filme trata de misticismo e fé. A garota se liga a um rapaz de origem islâmica. Vai discutir suas crenças (Jesus, Maomé, a Bíblia, o Alcorão) numa célula. Termina envolvida num atentado.

Crença. Dumont admite que o tema do misticismo lhe interessa muito, aqui e agora. Por quê? "Porque ultrapassa a filosofia e a psicanálise. O misticismo nos leva a áreas que estão além da razão, da própria compreensão do mundo. O misticismo não precisa ser colocado em palavras. Acho que, na verdade, ele nos leva a uma área muito próxima do cinema, e por isso, inclusive, o tema me atrai tanto. Mais do que a crença, o misticismo me ilumina o cinema."

O filme não deixa de tratar de paternidade e filiação. O pai de Céline, a protagonista, é um político. A garota sente-se estranha no próprio meio, na casa. Seu lar é o altar em que reza pelo Cristo dilacerado. O jovem muçulmano, com quem dialoga, será um pai para ela? "É mais um irmão de espírito do que um pai espiritual", diz o diretor. Sobre a polêmica questão - por que ele não é mais crítico com o terrorismo -, Dumont responde, placidamente. "Sou um cineasta, não um juiz. Quero entender meus personagens para entender o mundo, não julgá-los."

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