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''Sou outra mulher após fazer este filme''

Julie Bertucelli fala da experiência transformadora de filmar A Árvore

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2011 | 00h00

Julie Bertucelli tem uma atração toda especial pelo Brasil. Ela tem, inclusive, um projeto de filme que gostaria de fazer por aqui. Caso se concretize, não será o típico "macumba filme", para mostrar o País dos turistas. Julie admite que teria de ficar mais tempo aqui, sentindo o Brasil. A Austrália de A Árvore também não é turística. Para abordar a perda, é preciso não ter medo de aprofundar os sentimentos. A seguir, a entrevista com a diretora, concedida por telefone, da França.

Seu novo filme tem temas similares com Desde Que Otar Partiu. Ambos tratam de morte, de perda e, ao fazê-lo, falam da vida. Concorda?

São temas que me interessam e eu diria até que são os únicos de que consigo falar. Eu, às vezes, me pergunto se existem outros. A morte é o último dos assuntos em que gostamos de pensar, mas, se há uma coisa certa na vida, é que um dia morreremos. Qual é o sentido da vida? Como encarar a finitude? São questões filosóficas que o cinema pode abordar de forma muito física. Otar e A Árvore são similares, sim. Eu diria até que contam a mesma história. Ou melhor. Que tratam dos mesmos temas, mas que eu precisava de uma outra história para me sentir à vontade. Repetir-se é muito chato, mas se pode retomar os mesmos temas por meio de novos personagens, novas situações. É o que fazem os mestres.

Como você chegou ao livro de Judy Pascoe, Our Father Who Art in the Tree?

Todo o processo de A Árvore foi muito complicado, muito doloroso. Meu marido estava morrendo e eu me sentia perdida entre muitas ideias. O livro de Judy me foi sugerido por amigos, não propriamente como inspiração para um filme. Mas as pessoas me diziam - "Acho que você deve ler". Foi o que fiz. Imediatamente me toquei pelo que é uma verdade básica, e Judy expressa. O luto é muito parecido com o exílio. Nos arranca do outro, arranca uma parte de nós mesmos. É como uma viagem que a gente inicia para se desligar do outro, mas, ao mesmo tempo, queremos guardá-lo no nosso interior, assim como um exilado tenta manter a ligação com suas origens.

O filme conta a história dessa família que vive à sombra de uma figueira gigantesca. Quando o pai morre brutalmente, a caçula reage de uma maneira peculiar. Acha que ele reencarnou na árvore. Por que você resolveu manter a história na Austrália?

Não foi apenas porque a história originalmente se passa lá, mas porque me pareceu que o projeto poderia ser enriquecido pela paisagem. Não tínhamos muito dinheiro, mas a produção investigou e catalogou mais de mil árvores na região de Queensland, onde existem muitas figueiras de Moreton Bay. Lembro-me de Kieslowski. Para o primeiro filme da trilogia das cores, A Liberdade É Azul, ele queria uma casa específica para a personagem de Juliette Binoche. Fez-nos procurar, incansavelmente. E, depois que já havia escolhido, até a rodagem ele não sossegou. Pedia-nos que procurássemos mais ainda. O filme utiliza a força primitiva da natureza como espelho para os sentimentos dos personagens. Por isso, para mim, era fundamental filmar na Austrália. Naquele lugar, a natureza e seus excessos estão no centro de tudo.

Você conseguiu reunir um elenco de sonho. A menina que faz o papel, Morgana Davies, é ótima. Charlotte (Gainsbourg) também é muito boa. Como chegou a esse elenco?

Procurando muito, mas também com um pouco de sorte. O processo do filme foi lento, um pouco pelo meu luto, mas também o roteiro e a produção exigiram tempo, e ainda havia essa árvore, que eu imaginava de um jeito e não queria recorrer a recursos cenográficos, aprimorando uma árvore já existente. Procurei muitas atrizes australianas, cheguei a testar diversas, mas algo me travava. Quando decidi que a personagem poderia ser francesa, foi uma libertação. Charlotte, até por sua mãe (Jane Birkin), trafega entre culturas, entre o inglês e o francês. E ela é capaz de qualquer coisa. Charlotte não tem medo de ir ao limite das emoções, como fez em Anticristo (de Lars Von Trier). Quando você tem uma atriz como ela, sabe que vai poder arriscar. Morgana foi uma dádiva. Testamos um número incrível de meninas, mas ela se impôs. E tinha essa química. A mãe, os irmãos e ela formam na tela uma família na qual se pode acreditar.

O que a experiência como documentarista lhe deu? Qual a contribuição para a sua ficção?

É nada e, ao mesmo tempo, tudo. No documentário, tudo pode acontecer, não podemos prever tudo, planificar tudo. Na ficção, pelo contrário, a produção quer sempre evitar os imprevistos, que podem estragar o plano de filmagem, causar prejuízos. De minha parte, já percebi que quero guardar esta força e ficar atenta ao que me oferece a realidade. Por mais que prepare o filme, gosto de chegar ao set num estado virgem de mente, disposta a aceitar a inspiração de momento.

Você está falando de uma árvore, de raízes. Chega um momento em que o rompimento é necessário...

É a psicanálise elementar. Freud dizia que chega um momento em que, para crescer, precisamos romper o cordão umbilical com nossos pais. Tenho para mim que, trabalhando sobre os mesmos temas, construo algo novo. A construção da identidade é essencial, principalmente em tempos pós-modernos, quando os princípios parecem não ter mais valor. Para mim, de uma forma muito especial, A Árvore transformou o luto em imaginação e criatividade. Sou outra mulher depois dessa experiência.

QUEM É

JULIE BERTUCELLI

DIRETORA

Filha do diretor Jean-Louis Bertucelli, nasceu em 1968, um ano antes do filme mais famoso do pai, Remparts d"Argile. Foi documentarista e assistente de Krysztof Kieslowski e Otar Iosseliani antes de fazer ficção. Seu primeiro longa, Desde Que Otar Partiu, de 2003, foi definido por um crítico como "insuportavelmente comoven

te".

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