Dan Hall/AP
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'Sou obcecada pela morte', diz J.K. Rowling

Escritora fala sobre a liberdade de escrever seu 1º livro adulto após 10 anos dedicados a Harry Potter

Pedro Criado, especial para O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 20h30

LONDRES - A mulher por trás das histórias de mágicas e bruxarias que tornaram Harry Potter o personagem mais famoso da literatura contemporânea abre seu escopo com a edição do seu primeiro livro adulto: Morte Súbita, lançado agora pela Nova Fronteira e claramente não aconselhado ao público infantil. "Eu espero ter esclarecido que este não é um livro para crianças", disse J.K. Rowling, de 47 anos, durante coletiva sobre o livro em Londres, onde a escocesa foi recebida como uma estrela de rock.

"Há certas coisas que você não pode fazer quando escreve fantasia", explicou a autora que, após dez anos, se libertou do compromisso de escrever histórias juvenis. "Quando tudo terminou, fiquei em estado de choque e não parava de chorar", confessou ela sobre o fim de Potter recentemente. Morte Súbita (Casual Vacancy, em inglês) é a resposta após tantos anos de compromisso com a literatura infantil. "Você não pode fazer sexo perto de unicórnios. É uma regra. Seria brega", esclarece com humor a respeito de um dos temas presentes no novo livro.

O livro foi lançado com frisson no fim de setembro no Reino Unido, porém longe da loucura que já envolveu multidões durante os lançamentos de cada Harry Potter. Ainda assim, fãs, alguns bem jovens, acamparam à porta de livrarias no dia anterior do lançamento, tornando o livro o mais vendido durante a primeira semana. Entretanto, a surpresa foi seu conteúdo bem distante de bruxos, magias e fantasia que marcaram o nome de Rowling. Ao contrário, Morte Súbita aborda temas como estupro, racismo, drogas, automutilação, além de, claro, morte. "Tenho sido muito aberta sobre os temas que envolvem meu novo livro", responde ela quando indagada se está preocupada com o que vão pensar seus jovens fãs. "Sou uma escritora e vou escrever o que quiser", rebate, tentando defender os temas abordados ao longo das quase 500 páginas.

"Apesar dos temas, vejo o livro como humor; é a vida de uma cidade pequena", adianta. "O lugar é ficcional, mas é muito baseado na cidadezinha de onde eu vim, no Oeste da Inglaterra, um lugar muito bonito", diz. "Cresci em uma comunidade parecida com a descrita no livro. São pessoas de diferentes classes e situações. Nunca havia publicado nada para adultos, mas, antes de Potter, escrevi para adultos - de alguma maneira, é libertador, mas este livro foi também desafiador."

Rowling lembrou que teve a ideia durante uma turnê pelos Estados Unidos, antes de As Relíquias da Morte, a bordo de um avião. "Eu claramente tenho de estar me movendo para ter uma ideia", brinca ela, observando que Harry Potter surgiu a bordo de um trem quando tinha 25 anos. "Estou progredindo. Minha próxima ideia será dentro de uma nave espacial, talvez."

É difícil não associar Morte Súbita com a criadora da magia dos livros de Harry Potter. Entretanto, após a leitura das primeiras páginas, é possível esquecer rapidamente toda a fantasia de Potter, ao se deparar com uma árdua realidade. Logo no início, o único homem de bom coração, um vereador local, morre subitamente de hemorragia cerebral, deixando uma vaga na prefeitura. A morte faz com que alguns dos moradores planejem um esquema para encontrar um substituto.

Nas páginas seguintes, pesados temas aparecem, assim como palavrões e uma sucessão de mortes sórdidas que acontecem na encantadora, porém pacata cidadezinha no Oeste da Inglaterra. Além, também, de algumas passagens de sexo explícito. Em uma delas, um dos personagens descreve a perda da virgindade com uma das personagens: "Ela estava mais molhada quando eu a dedava. Ela era mais apertada do que eu pensava". Seria esta alguma similaridade com o sucesso recente de Cinquenta Tons de Cinza, de E.L. James? Rowling rebate: "Já ouvi falar, mas nunca li. Não sei se estou perdendo uma ótima leitura, pode ser incrível, mas não li", diz, acrescentando que "a diferença é que neste livro as pessoas fazem sexo, mas ninguém realmente gosta".

"Essa é a minha reputação literária, de assassina. Admito que sou obcecada com a morte. Não entendo como as pessoas não são fascinadas com o assunto; talvez elas sejam, mas eu consigo ser mais aberta ao tema", observa. "Há várias mortes no meu livro, como em Harry Potter, mas com algumas delas os leitores não vão se importar muito."

Por que seria a escocesa obcecada pelo tema? "Não sei. Talvez porque a minha mãe morreu quando eu tinha 25 anos - tenho a impressão que sempre fui preocupada com a morte. Na minha adolescência, vi vários familiares morrerem, e talvez seja essa a minha grande influência", explica ela, ressaltando que escrever sobre a mortalidade a ajudou a ter menos medo da própria morte.

Muito de Morte Súbita mostra os motivos que fizeram Rowling escapar da realidade para um mundo de fantasia como a de Potter, e por que ela continua ainda tão frágil, mesmo após tamanho sucesso.

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