Fabio Mota/AE
Fabio Mota/AE

'Sou metade gente, metade ente'

Há 70 anos, no dia 26 de junho, nascia Gilberto Passos Gil Moreira - revolucionário, ativista, político, agitador cultural, mito da música brasileira

JOTABÊ MEDEIROS, ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2012 | 03h08

Jorge Mautner diz que admira Gil porque tudo que Gil faz na vida é com rigor. Gil balança a cabeça desmentindo. "Eu mesmo me atribuo um déficit enorme de rigor na vida", rebate.

Bom, Gil pode não ter sido rigoroso em alguns momentos na vida, mas sua memória não parece falhar. Em depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e do Som do Rio, anteontem, ele falou durante cinco horas e meia de sua vida, desde a infância em Ituaçu, passando pelos quatro casamentos, os 8 filhos, a entrada na política, o Ministério da Cultura e até a ginástica diária, a ioga e a novela das nove.

O depoimento de Gilberto Gil foi um happening, um evento cultural na sede do MIS. O formato é memorialístico, com alguns entrevistadores para não permitir lacunas históricas. No caso de Gil, foram convocados Mautner, Carlos Rennó, Hermano Vianna e Marcelo Fróes. "A dimensão memorialística é um tormento para mim", considerou Gil - mas o sabor e a delícia narrativa de suas histórias os desmentiam.

Gilberto Passos Gil Moreira completará 70 anos no dia 26. Filho do médico José Gil Moreira e da professora Claudina Passos, ele nasceu em Salvador, no bairro de Itororó, mas cresceu no interior, em Ituaçu, cidade que contava com apenas 800 habitantes no censo de 1950, ao pé da Chapada Diamantina, entre a caatinga e as Gerais. "Por isso chamo de lugarejo", conta. Gil falou que nunca experimentou o racismo na infância. "Não havia. Primeiro, por eu ser de uma classe média elevada para os padrões, minha família pertencia à burguesia daquela cidade. Esse é um dos aspectos que marcam a questão racial, a emancipação econômica. Isso marca até mais do que raça no Brasil. Eram todos clientes do meu pai, que tratava os pobres e os ricos, os pretos e os brancos", ponderou.

Foi educado pela avó (que na verdade não era avó, era tia do seu pai), Lídia Moreira. Seu aprendizado das letras e dos números se deu "na mesa da sala, entre as panelas e os artesanatos de minha avó". Só aos 10 anos iria para a escola, em Salvador. Ali, engendraria suas primeiras formações musicais, com o Bando Alegre, enquanto sua vocação ia aflorando. Já ficou famosa a passagem que se conta de quando Caetano Veloso o viu pela primeira vez. Gil participava, na TV baiana, do programa de Jorge Santos. Caetano assistia em Santo Amaro e conta que Dona Canô, sua mãe, o chamava quando o programa começava. "Caetano, venha ver aquele neguinho que você gosta!", imitou.

Gil estudou Administração e foi fiscal da alfândega portuária na Bahia. "Lia O Capital, de Karl Marx, de olho nos navios, para detectar contrabando." Na universidade, a militância estudantil já não o via com bons olhos. "Eu não era propriamente alinhado com aquela turma. Eles tinham uma denominação específica para esse tipo de gente: linha auxiliar. Eu tomava conta da Escola de Samba Unidos do CPC. Eu dizia: não acredito nessa utopia. A perfeição é uma meta defendida pelo goleiro que joga na seleção", contou. Para Gil, nem a extrema esquerda nem a direita eram atraentes porque não permitiam a nuance, a sutileza. "O justo meio está na igual possibilidade dos extremos", disse.

"Algo diferente"Gil chorou ao descrever o nascimento da primeira filha, Nara (dele com Belina, a primeira mulher). "Flora teve um papel importante, o de unificar a família, essa superfamília, a transfamília que se formou. Ajudou a recuperar minha amizade com Belina, com Sandra, com a Nana."

O capítulo do tropicalismo foi fantástico. "Caetano, vamos lá, vamos fazer algo diferente. Olha como os Beatles estão mexendo com a canção popular de uma forma inventiva", exortou Gil ao seu maior parceiro. Convocaram os colegas da MPB, mas a reação às novas ideias não foi entusiasmada. "Não íamos formar um coletivo tropicalista ali", constatou Gil. "Aquela reunião já dava a ideia do tipo de problema no qual a gente estava se metendo." Num momento de afirmação do nacionalismo, parecia uma traição aquilo que Gil propunha. "Esse era o pano de fundo estético-ideológico. Um ambiente de rejeição a tudo que estabelecesse links com a música pop internacional."

Foram ouvir seu próprio pai, José, para saber o que achava das ideias tropicalistas do filho. "Tropicalista aqui sou eu, meu filho!", respondeu jocosamente o pai de Gil, que era médico de doenças tropicais. Segundo Gil, os "ecos dessa dificuldade que o tropicalismo criou" acabaram criando rejeição a projetos como os Novos Bárbaros, que o Pasquim - lembrou Jorge Mautner - chamava de "baihunos", uma mistura de baianos com hunos. Mas isso não os desanimou. Caetano foi à Bahia, conversou com Tom Zé. "Gil tá inventando essa história aí, eu já tô dentro", disse. Rogério Duprat aderiu, trouxe os Mutantes.

"Fui à passeata contra a guitarra elétrica por compaixão, porque eu não só não acreditava naquilo como estava providenciando as minhas próprias guitarras elétricas", conta o cantor. "Mas Elis (ele provoca novas gargalhadas imitando a cantora) me chamou e eu não tinha como dizer não. Eu fui por ela, eu não tinha coragem de dizer não a ela."

Gil falou de passagens pouco conhecidas de seu passado. Raul Seixas pediu para conhecê-los quando saíram da cadeia, presos pela ditadura - Raulzito falou de rock e lhe mostrou um disco do Vanilla Fudge. Disse que viu João Gilberto ser tratado como semideus no Japão, com aplausos de 9 minutos na plateia. Contou que Bethânia demonstrou estar com ciúmes quando resolveu se casar pela primeira vez. "Achava que eu era namorado dela."

Encontros Gil achou engraçado que sua história toda não coubesse naquele depoimento de apenas um dia. Sobre sua passagem pela política, disse que, embora tivesse desacreditado dela, entrou na disputa por um cargo a vereador em Salvador, estimulado pelos ares de redemocratização que a Perestroika e Gorbachev trouxeram à cena política mundial. Já o Ministério da Cultura foi mais complicado - houve até uma reunião com os amigos mais próximos, Caetano, Chico, Mautner, Waly Salomão. Chico disse: "Para você, poderá ser uma complicação. Para nós, vai ser ótimo." O "momento iniciático" de o País ter um operário no poder o convenceu. Mas também "os significados colados em minha própria pessoa, tropicalista que já tinha arrastado essas correntes todas". A chance de fazer uma gestão inventiva, que desse representatividade internacional e protagonismo ao Brasil no mundo globalizado, o convenceu. Disse que quase ficou desanimado com as verbas exíguas. "Poder político nós tínhamos, estávamos sob o guarda-chuva do presidente Lula. Fui um ministro mais do verbo do que da verba", diverte-se. Mas o balanço final é inequívoco. "Fico grato ao presidente Lula por ter me convidado. E fico grato a mim mesmo por ter aceitado."

Gil fala de sua rotina aos 70 anos. Faz ginástica e musculação todo dia, além de meditação. Vê a novela das nove, vê seriados como House, pratica muito violão. No fim do ano, lança o CD e DVD ao vivo do show Concertos de Cordas e Máquinas do Ritmo.

Ao sair, parece ter achado meio kitsch a ideia de deixar uma mensagem no final do depoimento, mas não se furtou a fazer a sua consideração final. "Na dimensão humana, das pessoas, dos homens, esses a quem a vida deu a possibilidade de especular sobre o significado dela, na vida desses homens há a dimensão individual - 'quem sabe de mim sou eu, aquele abraço' -, que é a pessoa com seus próprios botões, preocupações, êxtases, lamúrias. A outra dimensão é a histórica, aquela que não pertence propriamente à pessoa: seu modo de criar, o jeito como é compreendido, aceito ou rejeitado pela sociedade. Mas são critérios da sociedade, não são suas coisas, é o jeito como o mundo o tem para si. Esse sou eu: eu, cá com meus botões de carne e osso, só eu posso pensar se Deus existe, coisas minhas que às vezes também torno públicas em minha carreira. O que sobra é o Gil do mundo, da História. Eu sou parcialmente gente e sou parcialmente ente. Histórico."

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