''Sou como o Zero: sempre fujo daquilo que não quero''

, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2010 | 00h00

ENTREVISTA

Mort Walker, cartunista

Mort Walker, aos 86 anos, não para. Acaba de finalizar seu primeiro romance, após vários livros técnicos sobre desenho e três livros para crianças. "Chama-se O Homem mais Alto da História. É sobre um cara baixinho, um comediante que faz piadas curtas. Ele decide abrir uma agência de publicidade cujo maior objetivo é vendê-lo como um homem alto. Nunca deixa que o vejam", conta o cartunista autor do mítico Recruta Zero.

Quando o sr. criou o Recruta Zero, em 1950, qual era o seu principal propósito? O que tinha mente?

Eu desenhava para revistas e um grande editor estava comprando alguns dos meus cartuns, e um editor me disse: você faz muitas gags sobre crianças, porque não faz algo para universitários? Eu disse OK, e comecei a fazer. Foi quando surgiu Beetle, que no começo eu chamei de Spider (Aranha), que bebia um pouco e as pessoas começaram a chamá-lo assim. Quando o vendi, pediram que trocassem porque já tinham outro personagem chamado Spider, e eu apenas escolhi um outro nome de inseto (besouro). Passei a ser o mais vendido cartunista dos Estados Unidos e senti que podia viver daquilo. Minha mulher disse: "Se você é o mais vendido e só consegue levantar US$ 1 mil, você está no ramo errado."

Quantos anos o sr. tinha na época que o criou?

Tinha uns 22, 23 anos.

O sr. pôs muita crítica em seu personagem contra o sistema militar. O sr. já tinha essa ideia quando começou?

Tentei desenhar minhas próprias experiências. Cada personagem vem de meu tempo no Exército ou na universidade. Tentei colocar isso na tira. Uma vez, tive uma licença no Exército para ir à Califórnia visitar minha irmã, e me dei conta que não queria voltar. Então, pedi a um colega para levar uma carta ao sargento dizendo que perdi o ônibus. Fiquei dois dias a mais. Quando voltei, o sargento leu a carta e não pareceu dar a menor importância. Eu usava esse sistema, e ainda uso: faço o que quero. Do que não quero eu fujo.

Quanto do seu personagem vem da experiência no quartel?

Tudo vem daquela experiência. Eu, como o Recruta Zero, não gostava das regras, tentava fugir de trabalho duro.

Quantos anos o sr. tinha?

Uns 22, 23. Tinha acabado de sair do quartel, fiquei lá 4 anos.

É verdade que a última tira foi aprovada pessoalmente por William Randolph Hearst?

Sim. Quando concluí, eles disseram que iam enviá-la para o chefão. A tira voltou com uma anotação em tinta vermelha que ele fez: OK!

Quais foram suas primeiras influências?

Antes mesmo de eu aprender a ler, meu pai lia histórias para mim e eu me lembro da risada muito alta dele. Quando comecei a emprestar livros da biblioteca, lia muito a Enciclopédia Britânica e tentava desenhar verbetes. Depois, fui muito amigo de Milton Caniff, especialmente quando fui para Nova York. Ele me ajudou, me deu conselhos, me indicou para editores e me acolheu na Cartoonist Society. Will Eisner, quando construí o Museu dos Quadrinhos na Flórida, me ajudou, almoçávamos juntos.

O que o sr. pretendia quando criou o Museu Internacional dos Quadrinhos?

Ninguém mais estava colecionando cartuns, quando eu comecei, em 1974. Eu o mantive por 35 anos, coloquei nele meu esforço, dinheiro. Mas tive problemas financeiros, faltou apoio, então tive de vender o prédio. Procurei o pessoal do Empire State Building, tinha uma ideia para que eles o instalassem no deck de observação. Não deu certo. Então, doei tudo para a Ohio State University. / J.M.

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