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Sorriso libertador de Angélica

Manoel de Oliveira trata, em seu filme, da discriminação

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

Manoel de Oliveira cultua mais a palavra precisa que uma imagem inesquecível. Por isso, em seus filmes, os movimentos de câmera são raros e pouco acrescentam enquanto o diálogo é vital para o bom entendimento da trama. Tal predileção explica, em parte, sua paixão pela literatura e pelo teatro, formas artísticas que inspiram seus longas. Na seguinte entrevista, Oliveira comenta que chegou a alimentar um desdém pelo cinema, pois "não era capaz de filmar nem sonhos, nem pensamentos."

E a ilusão, em O Estranho Caso de Angélica, é essencial na mensagem de Oliveira - mais que realizar o sonho de encontrar a menina morta, Isaac busca uma alternativa para um presente sufocante. Como o roteiro do longa foi planejado logo depois de encerrada a 2ª Guerra Mundial, Oliveira inspirava-se na situação político e social vivida pelos judeus da época, sobreviventes de uma terrível perseguição implantada pelo nazismo.

A versão atual foi atualizada pelo diretor, mas a essência foi mantida: as perseguições continuam, ainda que distintas formas políticas ou econômicas. E, se na concepção original Isaac representava os judeus que fugiam da Europa pós-guerra em busca de liberdade, agora a imagem de Angélica desponta como um alívio contra as pressões atuais - é o sorriso da garota que o liberta e o livra de seus traumas.

O Estranho Caso de Angélica trata de um assunto que lhe é caro, ou seja, o dos amores frustrados. O senhor poderia comentar isso?

O Estranho Caso de Angélica fora pensado entre 1949/1952. Impossibilitado pelo governo fascista da época em que o desejei realizar e, assim impedido, até consenti numa publicação em França da planificação, fotos e desenhos que lhes enviei para a edição de um livrinho em francês e inglês. Nunca pensei que viria a realizar, até que o produtor François d"Artemare, que conhecera o projeto através do livrinho, propôs-me realizá-lo. Já eu, entretanto, vinha alterando os meus anteriores critérios cinematográficos. Até já pensava que a máquina de filmar em si não era capaz de filmar nem sonhos, nem pensamentos e que o teatro até era mais honesto, pois nunca os representava - o ator vinha em cena e dizia "eu sonhei isto e aquilo" ou o mesmo sobre o sonho. Mas o sonho neste particular caso se tornava indispensável e consubstancial, e Angélica não poderia existir sem ele. Penso que aqui o sonho é realizável por Isaac, um judeu afeito à perseguição do seu povo desde os velhos tempos, ora por uns, ora por outros. Para além de uma qualquer hipótese de amor frustrado face ao masculino-feminino, seria como uma fuga ao caos da situação presente e caótica que vimos no assoberbado o judeu Isaac.

O filme também homenageia o cinema antigo, especialmente Méliès. Foi no cinema mudo que o senhor aprendeu que o ambiente fala por si mesmo?

Logo após a invenção do cinema por Luís Lumière, nasceu o realismo no cinema. A seguir, Méliès criou o cinema fantástico e Max Linder deu-nos o cômico no cinema. Com essas três figuras, logo ficaram expressas as clássicas configurações cinematográficas, que foram usadas por todos os realizadores desde então, como configurações do ambiente de que fala.

O seu cinema sempre foi calcado na palavra em especial e na literatura, em geral. Isso significa que a palavra, além de movimento, é também imagem que, é também cinema?

Certamente. Todas as artes se filiam na vida corrente, seja no concreto das coisas e nos sentimentos, no real e no psicológico como no sobrenatural, para não falar do abstrato.

Comente, por favor, o antagonismo vivido por Isaac, um fotógrafo dividido entre as convenções sociais e a criatividade.

Haverá porventura um sentido de fuga a uma realidade perversa, e um apelo ao espírito que move toda a matéria a que se poderá dar o nome de Angélica.

Fale um pouco mais sobre esse projeto tardio de filmar O Estranho Caso de Angélica.

Como disse antes, só o realizei agora porque não me deixaram fazer antes. Era o tempo do fascismo e não queriam que o realizasse. Era, para eles, qualquer coisa fora do quadro, e isso era justamente o que o filme tinha de mais interessante. Era após a 2ª Guerra Mundial, tempo das ditaduras, em que Hitler perseguia judeus como Isaac.

QUEM É

MANOEL DE OLIVEIRA

DIRETOR, ROTEIRISTA E ATOR

Nascido no Porto em 1908, é o mais velho cineasta em atividade no mundo. Estreou em 1931 com o curta Douro, Faina Fluvial e já soma 30 longas em sua carreira.

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