Soroche, o mal das alturas

Em agosto de 1942 o Brasil declara guerra aos países do Eixo. Desde 1938, Guimarães Rosa era cônsul adjunto em Hamburgo. Não se espante que já tivesse sido segregado em Berlim na companhia de outros diplomatas e de funcionários do consulado. De lá, seriam todos conduzidos a "campo de internamento" em Baden-Baden, onde ficariam confinados por cem dias, até o momento em que fossem trocados por alemães, então detidos no Brasil. Seguem-se viagem de regresso à pátria em navio, sob a ameaça dos torpedeiros alemães no Atlântico, e nomeação para secretário da embaixada em Bogotá, cidade incrustada nos Andes colombianos, a 2.640 metros acima do nível do mar.

Silviano Santiago,

21 Julho 2012 | 03h58

Ao se instalar na Colômbia em 1942 e lá viver em "degredo" até 1944, o secretário sente "os pés frios do mundo" e padece a tirania do soroche, para usar a palavra boliviana que expressa o mal das alturas. Ainda desconhecido do grande público, o escritor redige o conto Páramo, inédito em vida, hoje em Estas Estórias. Ali, ficcionaliza a viagem do diplomata a Bogotá e os anos nela vividos. Traços dos cem dias de internamento do cônsul em Baden-Baden sobressaem na asfixia sofrida pelo personagem em virtude da rarefação do ar nas alturas dos Andes. Coação marcial e pressão atmosférica se somam e levam o prosador a dramatizar em ficção simbólica a angústia existencial por que ele passa e que toma conta do mundo em guerra.

Inesperada citação do verso "no sono rancoroso dos minérios", extraído do poema A Máquina do Mundo, de Drummond, indica que a segunda viagem a Bogotá, feita em 1948, levou-o a rever o texto. Também reitera a ambição filosófica da ficção sugerida pela dupla e perigosa experiência vivida. Bogotá é seu Aleph, para lembrar o conto de Jorge Luis Borges.

Tomada a Platão, a epígrafe de Páramo emoldura o trágico aprendizado de vida: "Não me surpreenderia, com efeito, fosse verdade o que disse Eurípides: Quem sabe a vida é uma morte, e a morte uma vida?" Os opostos retornam no discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, quando se harmonizam: "... a gente morre é para provar que viveu." A comprovar visualmente a epígrafe, dois quadros do pintor Böcklin (1827-1901) - A Ilha dos Mortos e Vita Somnium Breve - são descritos em Páramo. Tomadas pelas cores frias e pela fantasmagoria, as duas telas levam o macabro a dialogar com a placidez da natureza e a inocência das crianças. Releia-se o poema Lembranças do Mundo Antigo, de Drummond.

Naqueles anos foi lançada no Brasil a tonificante Emulsão de Scott, cuja publicidade mostrava um homem carregando às costas o bacalhau pescado, de onde seria extraído o óleo de fígado reconstituinte da força humana. No conto, o protagonista se traveste e se colore por duplo seu que ele, durante todo o desenrolar da trama, carrega às costas como a um bacalhau. O duplo é produto da condição psicótica do personagem e, como réplica, é pulsão de morte fatídica e revigorante. Sob o jugo do duplo o diplomata vive a sensação diuturna da "morte imperfeita e temporária" causada pelo soroche (e pelo internamento). Em reação ao duplo - e com a ajuda de "médico judeu exilado" - sobrevive à morte. Vida é morte, é ressurreição. "O apalpar imenso de perigos", lemos no conto, "é um falecer no meio de trevas". Continuemos. Surge depois "o renascido, um homem mais real e novo". Define-se o renascido: "Cada criatura é um rascunho, a ser retocado sem cessar, até a hora da liberação pelo arcano."

O duplo, "seu companheiro por decreto do destino", é apresentado ao leitor como "o homem com a semelhança de cadáver" e sua alcunha será retocada por sinônimos durante o desenrolar do conto (o homem com o ar de cadáver, com fluidos de cadáver, o homem frio como um cadáver, etc.). Esse duplo é objetivado no conto através da rememoração pelo narrador/personagem de episódio verídico acontecido em Bogotá e narrado, como descobre Bairon Oswaldo Vélez, no livro Reminiscencias de Santafé y Bogotá (1899), que reúne crônicas de José María Cordovez Moure (1835-1918).

No primeiro número de Tusaaji (2012), revista eletrônica canadense especializada em tradução, Bairon transcreve o texto de Cordovez Moure, sem dúvida fonte da versão rosiana. O conto Páramo a retoma: por maldade misteriosa uma mulher conservou uma mocinha emparedada em um cubículo de sua casa. Depois de mutilá-la de muitas maneiras, vagarosa e atrozmente, dava-lhe comida emporcalhada e servia-lhe água poluída. Não havia motivo para a maldade. Quando descobriram a vítima - "restos, apenas, do que fora uma criatura humana, retirados da treva, de um monturo de vermes e excrementos próprios" - e a libertaram, o ódio da carcereira aumentou ainda mais.

Na singeleza de parábola sobre tempos de campos de concentração e de internamento, o episódio de Custodia, o la Emparedada, devidamente circunscrito pelos terríveis acontecimentos que norteiam a vida de Guimarães Rosa naqueles anos, abre o conto a uma leitura sem precedentes de sua literatura. O jogo entre poder e sujeição, entre mal e bem, entre ódio, prisão, liberdade e ódio maior, entre morte, esperança e ressurreição, entre dor física, soroche mental e alegria, se deixa circunscrever por uma pegada concreta e cosmopolita que, sem se desviar dos anseios por geografias mineiras ou por abstrações filosóficas, granjeia as alturas poéticas em que se asfixia Cruz e Sousa no pungente poema Emparedado. O poeta negro padece a maldição de Cam na própria pátria. Como o diplomata em Bogotá, carrega cadáveres às costas. Leiamos trecho do poema:

"Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento, todos os empirismos preconceituosos e não sei quanta camada morta..."

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