Sopros depois do furacão

Jornalista retrata a reconstrução musical da cidade de New Orleans

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h10

Em 2005, Keith Spera, crítico de música do Times Picayune, resolveu ficar em New Orleans com o time de repórteres do jornal para cobrir os estragos do Katrina. "Àquela altura, perguntas sobre o que seria da indústria de entretenimento não passavam pela cabeça de ninguém. Havia corpos nas calçadas", conta ao Estado. "Mas rapidamente percebemos que a única forma de reconstruir a cidade seria restaurar sua alma, ou seja, a música e a comida que trazem os turistas aqui", explica.

Os meses que sucederam foram essenciais, e viram dezenas de histórias de superação e amor à cidade. Quint Davis, produtor do tradicional Jazzfest, declarou que haveria um festival de qualquer maneira no ano seguinte (só não se sabia quando e onde). Trent Reznor, dos Nine Inch Nails, ex-residente da cidade, tocou de graça e ajudou a realizar o Voodoo Experience, outro evento anual.

Spera as conta em seu livro Groove Interrupted - Loss, Renewal and the Music of New Orleans, disponível em inglês, pela Amazon, e traça um paralelo entre a reconstrução da cidade, a vida e os respectivos calvários de diversos músicos locais, do lendário Fats Domino, ao rapper Mystikal. O jornalista conversou com o Estado sobre a concepção do trabalho.

O livro tenta traçar um panorama atual da música em New Orleans. Qual foi a estratégia?

Eu queria responder à pergunta: "O que é a cena musical de New Orleans hoje." Mas isso não é tão simples. Resolvi expandir algumas reportagens interessantes que fiz sobre músicos depois do desastre e juntá-las sob a temática de superação. Queria mostrar os obstáculos que músicos importantes para a cena local, como Aaron Neville, Fats Domino e Mystikal, tiveram de superar para continuarem fazendo música. Há histórias de problemas de saúde, de problemas legais e de problemas de criatividade. Todas se passam nos últimos seis ou sete anos. Há muitos livros sobre New Orleans nos anos 50, coisas bem escritas sobre Fats Domino, etc. Mas eu queria escrever sobre esta música no agora.

Muito se fala sobre as dificuldades de reconstruir New Orleans. Mas há também uma ideia - ironia perversa, talvez - de que os músicos e a música da cidade ganharam muita projeção depois do desastre. Você concorda?

Sim. Allen Toussaint diz que o Katrina foi o melhor produtor de shows que ele já teve. Depois do furacão, a demanda pela música daqui cresceu intensamente. Músicos começaram a ser chamados com frequência para shows beneficentes e apresentações internacionais. Tornaram-se uma espécie de porta-estandartes da cidade. E as pessoas queriam vir aqui, gastar dinheiro, comprar música e assistir a shows para ajudar. Então, assim que a fase inicial foi superada, todo mundo começou a prestar atenção no som de New Orleans.

O retrato do Fats é um dos mais interessantes, pois mesmo sendo uma lenda do r&b, ele tem dificuldades em se apresentar.

Sim. A história narra a viagem dele para Nova York logo após o Katrina, para promover um disco tributo. A casa dele tinha sido destruída e ele enfrentava problemas sérios de ansiedade na hora de se apresentar. Ele ia tocar no Jazz & Heritage Festival anual no ano seguinte, cuja história também é um dos capítulos do livro. Era o headliner de um momento histórico, mas não conseguiu tocar. Avisou que estava doente no dia do festival. O capítulo conta a trajetória dele desde esse cancelamento até o verão seguinte, quando ele tocou num show beneficente no Tipitina's (uma das casas mais importantes de New Orleans).

E como foi?

Provavelmente será o último show dele, mas foi incrível. Ele se sentou ao piano, colocou as mãos no teclado, sorriu e de repente eu estava nos anos 50. Foi como uma viagem no tempo. Ele estava tocando e cantando exatamente como antes. Tocou apenas meia hora. Toda vez que ele levantava, um amigo dele dizia que era para ele voltar para o piano. Ele sentava, tocava mais duas músicas e levantava de novo.

As bandas de sopro, ou brass bands, são o cartão-postal da cidade e você encerra o livro com um perfil da Rebirth Brass Band. Qual foi o foco deste capítulo.

Contei a história de Phil Frazier, o fundador da Rebirth. Ele é importante primeiro porque a banda dele, pelo nome ("renascer") e pela visibilidade, se tornou o símbolo da reconstrução cultural da cidade. Ele também teve um derrame e quase ficou sem tocar, então a recuperação é como um paralelo da recuperação da cidade. Resolvi terminar o livro com essa história, porque as brass bands são a trilha sonora de New Orleans.

No livro, você faz um perfil do rapper Mystikal. Que parte tem o rap nesse revival musical de New Orleans, já que me parece ser a música mais popular entre a juventude negra local.

Há um diálogo entre a tradição e o rap, sim. O próprio Mystikal usa muito da percussão das brass bands. Ele tenta fazer algo parecido com James Brown tocando música de New Orleans. O Juvenile, outro perfil do livro, toca bastante com o Trombone Shorty, uma das estrelas da cidade, e com o Galactic, outra banda importante. No caso da Rebirth, o afilhado de Phil Frazier era o MC Soulja Slim, que foi assassinado em 2003. A parede entre os gêneros é sempre derrubada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.