Soprano poderosa conduz Verdi à vitória na Sala São Paulo

Verdi imprimiu à Messa da Requiem duas de suas mais evidentes marcas: a monumentalidade e a dramaticidade. Cerca de duas centenas de cantores e músicos capturam por praticamente uma hora e meia a atenção do público com o mesmo poder de sedução de uma ópera. O maestro alemão Hans von Büllow, que assistiu à estreia em Milão em maio de 1874, disse que Verdi escrevera uma ópera sem figurinos. Estava coberto de razão. O autor da Traviata e do Rigoletto transferiu mesmo para a música religiosa os atributos que o imortalizaram nos palcos líricos. Ganhou a música sacra, com certeza.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Normalmente, a música religiosa busca elevar o ouvinte aos céus e ao contato com o divino. Verdi age aqui na direção contrária. Lembra-nos de nossa condição terrestre - é quase uma celebração do humano, em vez de glorificação do divino. Daí a imediata comunicação desta música genial que colocas nossas sensações, culpas e anseios no palco e não nos deixa perceber o tempo passando.

Como o compositor resolveu a questão da "liga"entre as partes do réquiem, já que não tinha uma trama incendiária? Brincando com os temas. Ora eles irrompem em violentos arpejos descendentes, como no Líber scriptus, na fuga do Libera me e no Rex tremendae majestatis; ora esvaem-se em cálidas melodias em torno de poucas notas, como em Hóstias, no Agnus, na Lacrymosa e no Recordare.

O tonitruante Tuba Mirium e a vertiginosa fuga dupla do Sanctus contrastam com a delicadeza da Lacrymosa e do Agnus Dei. E o Libera me final, composto anos antes em tributo a Rossini, destaca-se, quem sabe por isso mesmo, por uma carga ainda mais elevada de dramaticidade. Tudo isso nos deixa eletrizados. Na última sexta-feira, o fenômeno repetiu-se. É este mesmo, afinal, o poder das obras-primas: oferecer-se sempre como um milagre da arte diante de nós. Desde que, é claro, sua recriação alcance um patamar mínimo de qualidade.

Nesse sentido, o saldo do concerto da última sexta na Sala São Paulo foi positivo. Os maiores destaques ficaram, pela ordem, com a extraordinária soprano Christine Brewer, timbre poderoso quando necessário, jamais encoberta pela orquestra finamente conduzida por Claus Peter Flor; e capaz dos mais refinados agudos em pianíssimo, audíveis em todos os cantos da Sala. Uma performance para não esquecer, sobretudo porque a sua é, de longe, a parte mais difícil e complexa entre os solistas. No mesmo nível de excelência esteve o coral formado pelo coro da Osesp e o Coral Lírico de Minas Gerais. Sua excelência deve-se ao impecável trabalho de Naomi Munakata.

A mezzo-soprano Lilli Paasikivi, dona de graves calorosos e um espetacular registro médio e agudo, foi muitíssimo bem nos solos e também nos duos com Christine Brewer. O baixo Reinhard Hagen esteve num nível igualmente bom. O ponto fraco da noite ficou com o tenor romeno Marius Manea, com uma voz de timbre apagado, hesitante nos momentos mais exigentes.

O maestro Claus Peter Flor modificou geograficamente a disposição da orquestra no palco - uma novidade interessante: os metais ficaram à direita e os contrabaixos à esquerda, segundo a visão do público. Sobressaiu o pequeno e bravo exército de fagotes ao fundo, no centro (eles deslocaram a percussão para o fundo, à direita). Sua regência firme e clara completou uma performance geral de bom nível do Requiem.

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