Divulgação
Divulgação

Sophie Hannah dá detalhes sobre recriação de obra de Agatha Christie

Autora britânica elimina personagem e cria caso 'inesperado' para o detetive da Dama do Crime

Clarice Cardoso, O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2014 | 20h22

Nos primeiros anos da década de 1910, uma jovem enfermeira inglesa encontrou um ônibus com refugiados belgas. Uma figura em especial chamou sua atenção: um homenzinho com a cabeça em formato de ovo e um bigodinho. Ficou fascinada por ele sem saber que, um dia, o mesmo aconteceria com gerações de leitores. A moça chamava-se Agatha Christie (1890-1976), e naquele dia ela encontrava a inspiração para criar um de seus mais famosos detetives, Hercule Poirot.

Em parte por conta de um desafio lançado pela irmã, Agatha começou a escrever O Misterioso Caso de Styles, romance de estreia de ambos. Outros detetives surgiriam – Miss Marple, Tommy e Tuppence – mas nenhum seria tão fortemente associado à Dama do Crime. Ex-policial, o detetive particular belga tem como características o peculiar bigode e o uso consistente das “pequenas células cinzentas”. É um homem baixinho, o que compensa com um grande ego. Sua aparência quase excêntrica é reforçada a todo momento, assim como o incômodo que sente ao ser confundido com um francês.

A relação dos dois se estendeu por 33 romances, uma peça e mais de 50 contos. Em língua inglesa, Agatha só perde em número de vendas para Shakespeare e, nos próximos meses, a L&PM relançará 30 de seus títulos, incluindo um que ela escreveu sob o pseudônimo Mary Westmacott.

A morte de Poirot (planejada pela autora desde os anos 1940), só aconteceria em 1975, em Cai o Pano. Tão grande foi a comoção, que o personagem ficcional ganhou um obituário no New York Times.

Quase 40 anos depois, Poirot protagonizará um novo romance, desta vez escrito pela também britânica Sophie Hannah. A poeta é autora de seis novelas policiais psicológicas publicadas em 27 países (três das quais sairão no País pela Rocco). Nesta semana, a autora entregou sua novela, prevista para setembro lá fora, e deu detalhes sobre como tomou para si o universo da Rainha do Crime – um projeto que tem apoio da família de Agatha.

“Nos meus livros, como nos de Christie, a trama é um componente importante, e as perguntas, os interrogatórios, estão ali, mas não pretendo introduzir uma maior profundidade psicológica aos protagonistas”, afirmou a escritora à agência de notícias EFE. Aos 13 anos, foi um livro da Dama que a inspirou a dedicar-se ao gênero.

Hannah diz que fez o possível para manter intacta a essência das obras, e que o novo livro se passará em 1929, escolha que se justifica porque, entre 1928 e 1932, Agatha não criou nenhuma história para o belga.

É preciso cautela para julgar uma obra que nem sequer foi lançada, mas uma decisão pode ser especialmente polêmica: neste livro, não encontraremos o capitão Hastings, melhor amigo e contraponto ficcional à personalidade de Poirot. No lugar, estará um novato da Scotland Yard. A escritora garante que ele conhece bem o detetive particular, o que lhe permitiu “dar um enfoque orgânico”. É verdade que o assistente não está em todas as histórias de Agatha (aparece especialmente nos contos e em menos de uma dezena de romances), mas adaptações dos textos o tornaram famoso. Numa comparação simplista, seria como ter Sherlock sem o dr. Watson.

Mesmo sem revelar detalhes da trama, Hannah disse que criou um caso diferente daqueles que Poirot está habituado a resolver. Assim, espera mostrar novos aspectos de sua personalidade “compatíveis com os escritos por Agatha”. Ela admite que tomar para si um personagem tão bem definido tem seu peso, mas diz que a pressão não é diferente da que sente quando escreve suas próprias obras.

Um mistério a ser desvendado é se a autora continuará escrevendo para Poirot no futuro. “Não depende de mim o número de romances que farei, e não sei se a família e os leitores vão querer que eu continue.”

Belga de volta ao cinema e à TV

A Fox anunciou que o clássico Assassinato no Expresso Oriente será mais uma vez adaptado ao cinema, desta vez com Ridley Scott à frente. A versão mais prestigiada é a de 1974, dirigida por Sidney Lumet, com elenco que fala por si só: Albert Finney, Lauren Bacall, Jacqueline Bisset, Sean Connery e Ingrid Bergman, que levou um Oscar.

Poirot pode ser visto na TV em uma das adaptações mais fiéis e elogiadas, a do ator David Suchet, na série que leva o nome do detetive. Já foram 13 temporadas, de 1989 a 2013. O canal +Globosat reexibirá os dois últimos anos a partir de junho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.