Sophia, ribeirinha e heroína de Sartre

'A Mulher do Rio' e 'O Condenado de Altona' ajudaram a erigir o mito da atriz

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2013 | 02h08

Entre 1950 e 55, Sophia Loren participou de mais de 30 filmes. Isso dá uma média de seis filmes por ano, e ela começou com papéis pequenos, até mesmo figurações, como em Quo Vadis?, que Mervyn LeRoy adaptou do romance de Henryk Sienkiewicz, em 1951. Justamente em 1955, quando fez A Mulher do Rio, Sophia já era uma estrela e, naquele momento, disputava com Gina Lollobrigida o troféu da sensualidade à italiana.

Filha de mãe solteira - seu nome era Sofia Villani Scicolone -, era ainda muito pequena quando a família foi morar no município napolitano de Pozzuoli, ali vivendo até a adolescência, e sempre numa situação econômica difícil. Até por isso - pelo conhecimento de causa -, Sophia nunca perdeu o jeito para interpretar mulheres do povo, embora na evolução de sua carreira tenha se sofisticado e feito outros tipos de papéis. Foi nobre espanhola em El Cid e imperatriz em A Queda do Império Romano, ambos de Anthony Mann, mas, no mesmo ano desse último - 1964 -, Vittorio De Sica fez dela a protagonista absoluta das três histórias de Ontem, Hoje e Amanhã, e numa delas era a napolitana típica.

Graças à Cult Filmes, você pode vê-la agora em dois lançamentos de DVD. A Mulher do Rio, de Mario Soldati, e O Condenado de Altona, sete anos mais tarde, quando Sophia já havia recebido seu Oscar - por Duas Mulheres (La Ciociara), também dirigido por De Sica. Foi o diretor com quem ela trabalhou mais vezes, um total de oito filmes. Os dois agora resgatados em DVD não poderiam ser diferentes. Nem as personagens.

A Mulher do Rio conta uma história que o diretor criou com Alberto Moravia. Sophia faz uma personagem de camponesa um pouco parecida com a de Silvana Mangano em Arroz Maldito, de Giuseppe de Santis, de 1948 (e o produtor Dino De Laurentiis era marido de Silvana). Em O Condenado de Altona, o produtor é agora Carlo Ponti, marido de Sophia e ela é uma atriz que integra família de industriais do aço. O filme baseia-se na peça de Jean-Paul Sartre - no original é Os Sequestrados de Altona.

Mario Soldati foi uma figura à parte no cinema italiano. Dublê de escritor e cineasta, foi melhor como romancista, mas possui um punhado de filmes que é bom não negligenciar. Tendo se iniciado durante o fascismo, pertenceu à geração dos chamados 'calígrafos', que transformou o formalismo e as adaptações literárias em ferramentas para enfrentar a censura do regime.

Mas Soldati também flertou com o neorrealismo, e A Mulher do Rio é considerado um exemplar de neorrealismo tardio, quando o movimento já se esgotara. Como a mulher do rio, Sophia denuncia o ex-amante, pai de seu filho e ele foge da cadeia para se vingar. Uma tragédia envolve o garoto e o relato toma outro rumo. Mesmo sendo roteirista - e prestigiado -, Soldati contou aqui com um batalhão de escritores - Giorgio Bassani, Florestano Vancini, Pier Paolo Pasolini e Basilio Franchina, entre outros. A dimensão social ficou datada. Sobra o erotismo. Sophia é bela, além de intensa, na fase 'bersagliera'.

O Condenado de Altona prenuncia Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti, de 1969. Uma família poderosa que se aliou ao nazismo e esconde o filho, ex-oficial de Hitler. Sophia faz uma atriz (brechtiana), de certa forma a consciência do grupo. O diretor cria cenas fortes em flash-back - a retirada da Rússia, sob um adágio fúnebre de Shostakovich. Mas o universo de Sartre não era o dele e, apesar do elenco - Sophia, Maximilian Schell, Fredric March, etc. -, o filme é um decepção. Hoje, até o De Sica gênio do neorrealismo (Ladrões de Bicicleta, Umberto D) é colocado sob suspeita. Reduzir Sartre a um pavoroso melodrama já era signo de decadência.

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