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Sopapos literários

É pena não ter chegado a nós uma carta que, vinda de Paris, Paulo Mendes Campos recebeu nas primeiras semanas de 1957. Sua sobrevivência permitiria reconstituir integralmente uma refrega literária na qual sobrou catiripapo também para Rubem Braga, que, como o J. Pinto Fernandes do poema de Drummond, não tinha entrado na história. 

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2015 | 02h00

O próprio missivista, de saída, foi avisando que sua carta seria uma “intrusão rude”. Pela resposta de Paulo, publicada na revista Manchete, onde assinava a coluna Conversa Literária, sob o título Bilhete, pode-se supor que o destinatário não conhecia o remetente, pois a ele se dirige com uma suposição a que não falta condescendência: “Pela confusão, pelos desaforos e também pela aparente sinceridade de seus propósitos, quer-me parecer que você é ainda muito jovem”. Era, de fato, mas não muito mais do que Paulo, que duas semanas depois teria 35 anos: no outro canto do ringue, Décio Pignatari andava pelos 29. 

É difícil crer que o colunista, arranchado como estava no miolo da cena literária brasileira, não soubesse quem era seu desabusado interlocutor. Além de haver publicado um livro de versos, Carrossel, em 1950 (dois anos antes, portanto, da estreia de Paulo Mendes Campos com A Palavra Escrita), Décio Pignatari, àquela altura, fazia barulho na condição de criador, ao lado de Augusto e Haroldo de Campos, da poesia concreta, cujo surgimento, como se sabe, não se fez sem farta distribuição de bordoadas, que por pouco não foram, também elas, concretas.

Amostras da belicosidade dos arautos da nova ordem poética recheiam a carta de Pignatari, a julgar pelo não menos ácido resumo que faz o poeta e cronista mineiro daquilo que considerou “uma arenga meio desaforada e bastante confusa”. Não chega a ser breve, mas vale transcrever:

“V. acha principalmente, entre muitas coisas: 1) que estou enganando o povo brasileiro (possíveis leitores) no banho mole das considerações emocionais; 2) que só os livros, e de modo nenhum a vida, podem habilitar-nos a distinguir entre bons e maus poetas; 3) que estou sonhando com uma utópica cidade de todo mundo feliz e o poeta também; 4) que o gosto da poesia é dado por motivos artísticos e técnicos; 5) que a poesia é um fato cultural; 6) que no Brasil de todos os tempos não há quem se compare a Cummings, Pound, Joyce e Mallarmé (o Mallarmé de Un Coup de Dés e o Cummings das grandes invenções tipográficas e espaciais, como v. mesmo distingue); que estamos no Brasil - Rubem Braga & Cia. (sic) - com uma poética casa & jardim engordando de grossura esse infeliz povo brasileiro; 8) que arte é FORMA; 9) que arte é estrutura dinâmica; 10) que lendo os grandes Mallarmé, Joyce e Pound é que se pode conceber o que é o humano, e não lendo os pretendentes bastardos, colaterais, ao trono da poesia cordial do tipo ‘somos todos irmãos’, esses miseráveis impostores; 11) que em língua portuguesa há somente algo de Sá Miranda, tudo de Fernando Pessoa, João Cabral (começando em O Engenheiro e acabando antes de O Rio), Drummond (menos uma porção de coisas), Mário de Sá Carneiro, Camões (Sôbolos Rios e alguma lírica); 12) que Mário de Andrade tinha visão universal, mas que se arruinou em uma consciência aberta a tudo”.

“Só os jovens negam e afirmam com essa sereníssima empáfia”, rebateu Paulo Mendes Campos, que, na fuzilaria de Pignatari, pode ser identificado também na vala comum daquele “& Cia”. “Eu não daria importância a sua carta se ela me parecesse um fenômeno isolado”, prossegue o colunista, para quem a manifestação de Pignatari faria “parte de um triste e equívoco estado de espírito que anda muito espelhado em certos grupos de jovens intelectuais brasileiros”. 

“Um estado de espírito que nasceu de um intrincado complexo colonial”, prossegue Paulo. “Vocês pecam, antes de tudo, e primariamente, é contra a cultura que reclamam nos outros e proclamam em si mesmos. Em seguida, o substrato da atitude de vocês é uma frustração diante da realidade, uma incapacidade de incorporar o Brasil às leituras mal assimiladas de certos expoentes de literaturas estrangeiras. Incapazes de pensar como o Brasil, dentro do Brasil, vocês arranjam um padrinho rico (Eliot, Pound, Mallarmé etc.) e começam a gritar que somos um país de botocudos, que fora de Eliot, Pound e Mallarmé não há salvação cultural.” Resumo da ópera: “No fundo, v. e seus irmãos de opa repetem apenas a fábula da torre de marfim”.

Hoje não se pode saber se pingou tréplica na caixa de correio de Paulo Mendes Campos, nem se, amainada a refrega, os dois poetas vieram a se dar, ainda que apenas no plano da cordialidade, só papo onde quase houvera sopapos - o que, no conflagrado picadeiro das letras, já não seria pouco. 

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