Sons que embalam Austin, Texas

Fiona Apple e as apostas do Festival South by Southwest, que termina hoje

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h11

Há quem diga que acompanhar o festival South by Southwest pelo Twitter é mais proveitoso do que se perder em meio à multidão de bandas independentes (boas e ruins) que invade Austin, no Texas, por quatro dias todo mês de março. A curiosidade através da hashtag é de certo uma maneira mais eficaz de galgar o hype, e de ter uma visão ampla das bandas desconhecidas que merecem atenção (aquele aleatório encontro com a música do cantor Janka Nabay, de Sierra Leoa, por exemplo). Logicamente, nada substitui o calor da descoberta in loco, mas a corrida atrás das grandes novidades do maior festival de música independente do mundo, que termina hoje, tem sido tão bem documentada (há streaming ao vivo de shows pelo site da NPR, e de palestras pelo site do próprio festival, para não falar da enxurrada de vídeos postados no YouTube a toda hora) que é perfeitamente possível ficar em casa e acompanhá-la.

A volta de Fiona Apple se desdobra como a principal história deste ano. Na quarta-feira, a cantora mostrou duas belas canções inéditas, que fazem parte de seu novo disco, o prolixamente batizado The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw, and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do, que tem lançamento previsto para junho. Os elogios à performance, acompanhada de bateria, guitarra e contrabaixo acústico, foram unânimes: Fiona está de volta.

A cantora não lança um álbum há sete anos e, aos 34 ainda cria com a energia dos idos de Tidal, disco de 96, que fez dela, aos 19, uma musa do pop autoral. Como já explicou em entrevistas, Fiona compõe somente quando sente ser absolutamente necessário, o que explica o alto nível das novas canções e da performance, que pode ser vista pelo próprio site da cantora, www.fiona-apple.com. Anything We Want, uma sensual canção sobre um relacionamento, começa com o tilintar de percussão metálica, vamp jazzístico, e envereda por um refrão quase lírico, que traz melodia e letra à síntese da canção: "Então viraremos adultos, tiraremos nossas roupas e você irá se lembrar de que eu queria que você me beijasse", canta.

Every Single Night tem melodia idiossincrática, entoada de forma neurótica por Fiona, com tom confessional. Entre as já clássicas, Fast As You Can alterna entre funk dissonante e shuffle de blues; e Carrion viaja pelo jazz para chegar a algo punk como Patti Smith, com o desejo penitente e sensual pelo qual as letras de Fiona, especialmente Criminal, sua mais famosa, ficaram conhecidas. As canções são excelentes. Vale aguentar a baixa qualidade do áudio (gravado em celulares) disponível no site para se ter uma prévia do que certamente será um dos grandes discos do ano.

No departamento de novas estrelas que já saíram do anonimato, mas ainda não estouraram, e se apresentam no SXSW, estão cantoras como Sharon Van Etten, que acaba de lançar o elogiado disco Tramp pela respeitada gravadora independente Jagjaguwar. Van Etten tem sido comparada a Cat Power, mas suas canções sobre relacionamentos possesivos têm personalidade.

O rapper nova-iorquino A$AP Rocky chegou ao festival como uma das promessas do ano, mesmo que em uma posição menos badalada do que a ocupada pelos anárquicos MCs do Odd Future no ano passado. Seu disco está no forno, com lançamento previsto para julho deste ano e uma elogiada mixtape, LiveLoveA$AP, flutua gratuitamente pelos rincões da internet. Entre as eminentes bandas de indie rock está o Chairlift, que faz pop retrô com referências mais incomuns aos anos 80. A banda acaba de lançar o disco Something, que tem cações irremediavelmente cool, como Guilty as Charged. A menina prodígio Charli XCX é também uma das apostas para o ano. Suas melhores canções, Nuclear Season e Stay Away, têm maturidade incomum para uma menina de 19.

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