Sons de uma guerra

Não foram só bombas e disparos que ecoaram em Bagdá. Um livro mostra que a Guerra do Iraque produziu um novo tipo de soldado, aquele que cria a própria música, seja ela erudita, jazz ou rap

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Lili Marlene, a mítica canção de Marlene Dietrich que fala de separação, despedida e a incerteza de um dia retornar, foi originalmente curtida pelos soldados alemães na 2.ª Guerra Mundial (1939-1945) e transformou-se no maior sucesso entre os soldados aliados. Muitos se lembram também do major músico Glenn Miller e sua big band fazendo turnês por onde se acantonavam as tropas aliadas na 2.ª Guerra - uma história de fantástico sucesso mundial brutalmente cortada por um acidente aéreo em 15 de dezembro de 1944, num voo entre Inglaterra e França. E a voz inimitável de Robin Williams fazendo ecoar nas trincheiras seu Goooooood Morning, Vietnã, no filme de mesmo título de 1987 no qual ele comandava um programa de rádio em que o maior hit era, ironicamente, a maravilhosa versão de Louis Satchmo Armstrong para What a Wonderful World?

Pois a Guerra do Iraque, primeira do século 21, subverteu definitivamente o modo como a música sempre disse "presente" na vida dos soldados mergulhados no teatro de combate. Em todas as guerras do século passado, eles apenas ouviam e no máximo cantavam as músicas dos profissionais; agora, os próprios soldados produzem sua música, dispensam intermediários. Eles mesmos choram as dores da perda, do parceiro morto, da saudade de casa e do desespero.

Os gêneros mais populares são, naturalmente, o hip-hop e o rap, além do heavy metal. O espanto ocorreu quando Jonathan Pieslak - professor de música do City College de Nova York que pesquisa o tema desde 2003 e é autor de Sound Targets - American Soldiers and Music in the Iraq War (228 págs., Indiana University Press, 2009, sem previsão de sair no Brasil) - encontrou soldados compositores eruditos que praticam a chamada música contemporânea, músicos de jazz e até songwriters na melhor tradição da era de ouro da música americana, que viveu seu apogeu entre os anos 20 e 50 do século passado.

"A música sempre desempenhou papel importante na guerra. Jeová instruiu os israelitas a soprarem seus trompetes de prata quando fossem atacados, o boogie woogie encorajou as tropas americanas na 2.ª Guerra; e músicos pop como Jimi Hendrix e Jim Morrison fizeram a trilha sonora da primeira guerra do rock"n"roll no Vietnã", diz Jon Pieslak em entrevista ao Estado. "A atual Guerra do Iraque não é exceção."

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