Epitácio Pessoa/AE
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Sons da roça

O compositor Rafael Alterio e o estúdio rural que atrai craques da música

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

Lá pra lá de Sorocaba, onde a grama é alta e a vaca pasta tranquila, um empresário que virou leiteiro, mas descobriu que sua vocação é ordenhar cordas, toca o mais impressionante estúdio rural do Brasil. Arquitetura rústica, uma profusão de cômodos, temperatura amena, pôr do sol estarrecedor, piscina, equipamento de ponta. Não fosse a soma de talento que gira em torno de Rafael Alterio, o estúdio Gargolândia, que fica entre Sorocaba e Itapetininga, certamente estaria em uma revista de decoração. Mas Flora Purim, Léa Freire, Celso Viáfora - além dos próprios trabalhos de Rafael com Paulo César Pinheiro, André Mehmari e Cesar Camargo Mariano - fazem do lugar um pequeno paraíso de boa música. "O Toninho Horta e o Ivan Lins me deram a ideia", conta Rafael, que forma com Ivan a dupla Fioravanti e Guimarães. "O conceito é simples: o cara vem, passa uma ou duas semanas e finaliza o projeto. Os instrumentistas piram. Quando o som não sai direito, o cara vai sentar na beira do açude. Aí ele volta quebrando tudo", conta.

Gargolândia (nome que origina de gargarozzo, garganta em italiano) é o capítulo mais recente de uma história que começou nos anos 90, quando Rafael decidiu ser compositor. Já havia participado de bandas de rock na juventude. Era amigo dos Mutantes, mas a responsabilidade familiar o obrigou a dar sequência aos negócios do pai. Depois de mais de uma década no campo, as notas começaram a coçar. Fez uma música, deu para sua mulher, Rita, botar a letra. Pegou gosto. Gravou o primeiro disco e em 2000 foi semifinalista do Prêmio Visa.

Logo lançou o Pescador da Lua, com arranjos de Mehmari, que na ocasião da entrevista, visitava a Gargolândia para entregar o piano de estimação que vendera ao estúdio. Desde então, Chico gravou uma de suas canções, Paulo Cesar Pinheiro pôs letra em outra. Agora, Rafael se prepara para lançar o terceiro, feito por um time de craques da MPB, que vai de Toninho Ferragutti a Mônica Salmaso. "Eu estava no Rio com o PC (Paulo Cesar Pinheiro) e disse que queria muito fazer uma música para ele botar letra, mas a inspiração não vinha. Aí ele falou que tinha uma entidade, um caboclo que o ajudava e que ele talvez pudesse mandar um primo para me dar uma força. Pois bem, um mês depois eu estava fazendo uma trilha de filme, nada saía, eu fui dar uma volta sentei e a primeira música veio, com refrão e tudo, em 15 minutos", conta. Foi a gênese de Santo de Casa, disco a ser lançado ainda este mês pela gravadora independente Tratore (mais informações abaixo), que vasculha vertentes pouco conhecidas de ritmos brasileiros e tem a pegada contemporânea de seu filho Pedro Alterio e Dani Black, ambos integrantes do quinteto Cinco a Seco.

Mas o trunfo que há de fazer o Gargolândia ser lembrado eternamente talvez não seja musical e sim cômico. Trata-se de um vídeo, feito no estúdio, intitulado O Jardineiro É Jesus e as Árvores Somos Nós. Ou "nozes", ou "arverezes", como pronúncia o coitado do protagonista, repentinamente, por três minutos que se tornaram alvo de meio milhão de gargalhadas da internet. Rafael explica: "Era para ser um disco gospel. O cara era do norte da Bahia e foi ler o texto devagar. Se ele tivesse falado rápido, ninguém teria percebido. Mas no dialeto dele, árvores é "arverezes" e nós é "nozes". Quando pedi para o meu filho editar, entrei no estúdio e pensei que ele estivesse morrendo. Mas ele estava rindo". Foi a primeira vítima.

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