Sonoridade calorosa em programa com a orquestra de Roterdã

As aveludadas cordas da Filarmônica de Roterdã transformaram num acontecimento musicalmente mais atraente o concerto da fria terça-feira na Sala São Paulo. Mesmo nos "tutti" da Quarta de Tchaikovski ou do Ensaio n.º 2 de Samuel Barber, sua sonoridade escura e adocicada sobressaía. Nas passagens mais líricas, tanto numa quanto noutra obra, essa característica tão marcante parecia envolver calorosamente a sala inteira.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2011 | 00h00

Mas havia mais atrativos naquela noite. O regente norte-americano Leonard Slatkin, de 66 anos, regeu de cor. Pode ter adotado o costume depois do vexame público de março de 2010 nos ensaios de uma montagem da Traviata na Metropolitan Opera House de Nova York, quando cantores do calibre de Thomas Hampson e Angela Gheorghiu e os músicos perceberam que o maestro nem sequer conhecia a partitura. Slatkin justificou-se em seu blog: "Não faço ópera com frequência e jamais regi uma Traviata, mas como todos lá a conhecem bem, achei que poderia aprendê-la com os mestres. Nos ensaios, parecia que eu era o único que jamais participara de uma montagem dessa ópera. Percebi cenhos franzidos, sobrancelhas levantadas". Anthony Tommasini, crítico do New York Times, foi um dos que bateram forte no maestro: "Não parece a melhor ideia um maestro aproveitar a oportunidade de reger no Met para "aprender" a Traviata".

O episódio arranhou-lhe a reputação. Até certo ponto injustamente. Afinal, Slatkin é ótimo regente quando rege o que conhece. Aliás, episódios semelhantes com maestros brasileiros também costumam ocorrer por aqui com certa frequência; o cidadão sobe ao pódio para ensaiar uma obra que simplesmente não conhece. Mas Slatkin comprovou suas qualidades no Essay n.º 2 de Samuel Barber, cujo centenário de nascimento foi comemorado em 2010. Barber é o típico compositor que pratica o que Liszt, radical em tudo que fez, chamou certa ocasião de "inovação permissível", ou seja, jamais corre risco de desagradar a alguém. As más línguas dizem que ele foi o único compositor no século 20 a sobreviver de seus ganhos exclusivamente como compositor.

Com Haydn, no século 18, isso só aconteceu no final da vida, quando o florescente e pioneiro mercado inglês de concertos o transformou numa superstar. Faturando bem pela primeira vez na vida em sua segunda turnê londrina, ele fazia de tudo para mimar e surpreender o público inglês - com uma diferença: ele era gênio acabado. Incrementou, por exemplo, com tambor, trompete e flautim a Sinfonia n.º 100, apelidada "Militar", só para levar o público ao delírio. Mas a obra não se reduz aos seus efeitos, como bem demonstrou a regência discreta de Slatkin. É inovadora no formato de seus temas, no desenvolvimento inesperado, na assimetria de construção.

E Tchaikovski? Bem, o compositor russo é um matador, sempre vai direto ao ponto. Explora como ninguém todos os recursos da orquestra. Já houve quem dissesse que depois dele era preciso mudar o teodolito da criação orquestral - pois ele levara aquela linguagem ao limite. Como não se encantar com o delicioso pizzicato ostinato do scherzo? Ou com o tema do destino que a todo momento nos lembra, com uma pitada trágica, do drama pessoal do compositor? Roterdã tem madeiras excelentes, assim como metais muito bons. As aveludadas cordas completaram uma vibrante leitura da Sinfonia n.º 4.

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