Sonolentos e dispensáveis sonidos

Organização é boa, mas combinações infelizes fazem naufragar importante evento latino

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

Terminou já na madrugada de ontem o Festival TelefônicaSonidos, no Jockey Club de São Paulo. Nas quatro noites de sua segunda edição, o evento recebeu no total 15 mil pessoas no Palco Pop Urban e 3 mil no Palco Jazz Latino, de acordo com os organizadores. Após quatro noites com um total de dez apresentações, sempre misturando artistas latinos com brasileiros, o saldo final do evento foi negativo.

Em termos de organização, o festival não deixou a desejar. O posto de atendimento médico ficava bem localizado e não registrou muitas ocorrências. Os banheiros eram em boa quantidade e limpos com frequência. Os caixas tiveram filas compridas, principalmente na noite de sexta, que andavam rapidamente, mesmo levando-se em conta os preços abusivos, habituais dos festivais brasileiros. A cerveja custava R$ 6 e um pedaço de pizza, R$ 10. Sobre o som, volume e equalização eram bons e os dois telões nas laterais do Pop Urban funcionaram perfeitamente.

Se em relação à organização o evento foi exemplar, a curadoria foi lamentável. A intenção de proporcionar a mistura entre latinos e brasileiros deve ser enaltecida, porém, os curadores precisam aprender que não é qualquer atração estrangeira que consegue facilmente enganar por aqui.

Outro ponto importante é que não basta escalar gringos medalhões no line up, eles têm de provar que não são apenas nomes de respeito. Isso ficou claro com a apresentação do pianista cubano Omar Sosa (com o brasileiro Jaques Morelenbaum), que naufragou e não saiu do lugar, na quinta. Sem contar o lendário Chucho Valdés, que teve na quarta seu show salvo pela participação do bandolinista brasileiro Hamilton de Holanda.

O mesmo ocorreu na noite de anteontem com o show, no Palco Jazz Latino, do espanhol Pitingo ao lado de Marina de La Riva. Apresentando as facetas de sua soulería (mistura de soul com a bulería, uma das derivações do flamenco), o cantor protagonizou uma das atuações mais cafonas e equivocadas do festival, apelando para versões de Let It Be e Yesterday (dos Beatles) e de Killing Me Softly (Fugees). Parecia uma banda de formatura.

Caçando níqueis. A noite de sexta recebeu o maior público do festival. Grande parte da plateia foi atraída ao Jockey pela participação de Marisa Monte no show da mexicana Julieta Venegas. A brasileira cantou apenas três músicas, não escapando do clichê de interpretar com um arranjo sonolento a batida Soy Loco Por Ti América. A mesma noite ainda teve a bizarrice pop-eletrônica-pasteurizada dos venezuelanos do Los Amigos Invisibles, com participação dispensável de Seu Jorge. Quem se salvou foram Alex Cuba com Tulipa Ruiz, no Palco Jazz Latino, e Juan Formell e Los Van Van, acompanhados da festa de Carlinhos Brown.

A noite de anteontem teve novos equívocos. Com qual critério escalam-se para o mesmo evento - ainda que em dias diferentes - nomes como Chucho Valdés e Victor e Leo? Não é diversidade, é uma programação esquizofrênica. E qual o propósito de convocar nomes como Jota Quest e Seu Jorge, que se apresentam há anos em São Paulo?

Mesmo assim, a banda mineira foi a melhor atração da última noite. O grupo contou com a participação dos argentinos Illya Kuryaki & The Valderramas e não queria sair do palco tão cedo. "Vou falar uma parada, não consigo guardar. O pessoal tá querendo que a gente termine logo, que o festival tem que acabar antes das 3h. Tô puto", reclamou Rogério Flausino.

O Jota Quest se apresentou depois de mais uma atração patética: Camila. E o festival terminou com longa apresentação enlatada de Victor e Leo e a pista vazia.

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