Sonhos viram livro de Ana Miranda

Por que um escritor deveria anotar seus sonhos? E por que, anos depois, um editor deveria interessar-se em transformar esses sonhos anotados em um livro? Quando começou a tomar nota dos sonhos reunidos nesse Caderno de Sonhos (sonhos sonhados entre 3 de dezembro de 1972 e 23 de março de 1976), a então atriz Ana Maria Miranda, como a chamavam na época, tinha 21 anos e estava grávida de seu único filho. Não pensava em publicá-los, ao contrário, acreditou que anotava apenas para si. Também não sonhava em tornar-se uma escritora, ou esse era ainda um sonho difuso, de modo que não houve intenções literárias escondidas nessa decisão. O filho nasceu e Ana continuou a registrar seus sonhos durante seus três primeiros anos de vida. Ao longo dos anos seguintes, teve outros cadernos de sonhos, cujo número não sabe precisar; mas todos se perderam, só esse se conservou.Um quarto de século depois, quando Ana Miranda, como agora ela assina, decidiu publicar seus sonhos de juventude, contrastados com os relatos de seus livros de ficção, eles ganham inesperadas tonalidades. Vêm acrescentar aos livros aspectos pessoais que pareciam perdidos, camuflados, ou que eram desconhecidos, fator que poderá enriquecer a leitura de suas ficções. "Havia alguém em meu interior diferente de quem eu acreditava ser", ela diz na breve introdução que produziu para a coletânea. Ao anotar os sonhos, cogita ainda, quis livrar-se dessa sua assustadora personalidade noturna, que, de outra maneira, e mais tarde, trabalhou em seus livros. Seguiu sem saber, agora constata, o mesmo caminho de escritores como o norte-americano Van Dusen, célebre por suas reuniões de sonhos, e até do próprio Sigmund Freud, que interpretou alguns dos sonhos que teve, como o da garganta de Irmã, e sonhos de seus pacientes, como o dos lobos na árvore.Todos os mecanismos inerentes ao sonho - a atemporalidade, o paradoxo, a condensação, o deslocamento, a substituição, etc. - reaparecem, com fartura de detalhes, nos sonhos de Ana. Mecanismos que, afinal, também presidem a criação literária, quando o deslocamento se transforma em metáfora, a substituição em metonímia, a condensação em sinédoque e assim por diante. Nos sonhos de Ana, como em todos os sonhos, misturam-se restos de experiências diurnas, desejos inconfessáveis, recordações remotas e fantasmas pessoais, todos devidamente mascarados ou deformados.Detalhes - Nos sonhos reunidos nesse Caderno aparecem, por exemplo, os desejos sexuais da escritora, suas fantasias mais reprimidas: ela seduz jogadores de futebol, salva-vidas, homens simplesmente descritos como "bonitos", entrega-se aos prazeres do amor em lugares constrangedores como um bordel, um tribunal, o paraíso, sem que a censura, a lógica, o pudor, ou as convenções sociais possam interferir."Vejo na rua um homem muito bonito e o convido para ir para a cama comigo", começa o sonho de 22 de agosto de 73. E mesmo sentimentos desagradáveis como a aversão ou a repugnância não bastam para barrar essas fantasias, como aparece num sonho de 20 de março de 74: "Faço sexo com um homem velho. Estamos num quarto de hotel, há duas camas, uma janela coberta com cortina, um grande armário", sonho em que se revela seu gosto pelas descrições minuciosas.No primeiro sonho do livro, de 3 de dezembro de 72, Ana se vê num vestido de seda, dançando, num terraço, com um homem de terno preto. Os dois terminam fazendo sexo, mas o ritual amoroso é interrompido pelo pai de Ana, que aparece na porta, com uma vela na mão, e faz sinal para que ela fuja. Mas Ana avisa que não vai fugir, porque o homem é seu marido. No último, datado de 23 de março de 76, Ana está perdida no topo de uma montanha, sozinha, e ainda lhe resta caminhar muito até chegar a seu país. Apesar do medo, avança. No meio do caminho, um homem a agarra e tenta estuprá-la. Foge, encontra com um amigo e lhe pede socorro mas, para sua surpresa, ele tenta violentá-la também. Na fuga, perde seu saco de mantimentos, mas sabe que terá de continuar assim mesmo. Não há fio linear algum, contudo, ligando o primeiro ao último sonho. A leitura do Caderno de Sonhos, de Ana Miranda, confirma a velha tese freudiana de que os sonhos não respeitam as leis da lógica, a noção humana de tempo, ou qualquer tipo de bom senso. São, ao contrário, arbitrários, dúbios, indomáveis.A quebra do tempo aparece em sonhos como o sonhado em 23 de março de 74: "Vivo no século 18, sou casada com um médico que desenha e pinta cenas da vida da cidade. Sou poeta e acabo de escrever um poema", ela começa a anotar. Em 73, Ana estava grávida e esse aspecto da vida real aparece insistentemente nos sonhos da época. "O neném nasceu e é colocado num aquário. (...) A água parece um espaço sideral infinito, negro, repleto de estrelas e nebulosas coloridas. (...) Quando me afasto do aquário, vejo que o neném desapareceu" (sonho de 14 de janeiro de 73). Elementos como o choque, a tensão, o suspense, o susto estão presentes, de modo insistente, nos sonhos anotados por Ana definindo a atmosfera de suspense e de inquietação que costuma caracterizar os sonhos ruins, isto é, os pesadelos.Podiam não ser os sonhos de uma escritora, ser apenas os sonhos de uma mulher qualquer. Na face escura da mente, prestígio, talento, títulos, nada disso importa, tudo se nivela. Mas, já que foram sonhados por uma mulher que viria a ser uma escritora, os sonhos de Ana podem ser apreciados por seus leitores, hoje, como rascunhos muito primitivos de seus livros. Neles também a sensualidade, a coragem, a luta pela autonomia, a riqueza de detalhes, os sentimentos extremos são aspectos que não se podem desprezar.Cadernos de Sonhos. Ana Miranda. Dantes Editora, 144 páginas, R$ 22

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.