SONHOS REVISTOS NA MATURIDADE

Após 10 anos, Bernardo Bertolucci volta ao universo jovem no delicado Io e Te

FLAVIA GUERRA , ENVIADA ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2012 | 03h12

Aos 70 anos e há quase 10 longe do set, após uma operação malsucedida que o confinou em uma cadeira de rodas, Bernardo Bertolucci começou a sentir vontade de voltar a filmar. E mais, quase três décadas sem filmar em italiano, passou também a sentir a vontade de contar uma história em sua língua natal, o tão "literal e poético italiano". "Senti vontade de mudar, de contar uma história que se passa na Itália, meu país. País em que há muitos anos eu não sentia vontade de filmar por não concordar com tantas coisas que aconteciam ali, principalmente na política. Mas depois de entender que a cadeira de rodas não me impedia de viver. Só me fazia ter um ponto de vista diferente da vida. E já era hora de mudar", contou o cineasta ao Estado na semana passada, logo após sessão calorosa de seu mais novo filme: Io e Te (Eu e Você).

A mudança veio com essa história sobre um garoto e uma garota que, entre tantas outras coisas, aprendem a serem irmãos. Inspirado no best-seller Io e Te, de Nicolò Ammaniti, o filme narra a história de Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori), um garoto de 14 anos que, em vez de embarcar na excursão da escola para uma semana de esqui, decide passar estes dias enclausurado no porão do prédio onde mora em Roma. Tímido, antissocial, mas também sensível, meticuloso e perspicaz, Lorenzo tem dificuldade de se comunicar com os pais, com os amigos e com o mundo. E cria um mundo particular no qual pode ouvir música, assistir a filmes no computador, ler e se sentir à vontade. Sua semana de sonhos está pronta para começar quando, de repente, chega uma visita inusitada: a meia-irmã Olivia (Tea Falco).

Ela cresceu no sul da Itália com a mãe. Fotógrafa precoce, ganhou diversos prêmios e tinha uma carreira pela frente, até que a heroína apareceu. Decidida a se livrar do vício, acaba pedindo abrigo no refúgio de Lorenzo. Eis que nasce uma cumplicidade entre dois até então quase desconhecidos. São duas solidões que se encontram e se chocam. Para Bertolucci, esta é uma história de perdas, desapontamentos, saudade, falta, esforço e sonhos de dois jovens. "Acho que a maioria dos meus filmes fala do universo jovem, de seus medos, suas vontades, seus desafios. Talvez seja porque me interessa muito a energia que o jovem tem, que tem muitas vezes de aprender a usar para aprender a viver em um mundo que não compreende", declara o diretor.

É exatamente este fascínio pelas questões do jovens que faz de Bertolucci um diretor único. Os Sonhadores, seu filme anterior, já tratava exatamente da história de três jovens confinados em um apartamento de Paris em pleno maio de 68. "Acho que sou um caso de arrested development (desenvolvimento retardado), pois mesmo hoje, aos 71 anos, entendo e continuo fascinado e apaixonado por retratar os conflitos, dramas e história dos mais novos."

Para contar no cinema a história desses dois irmãos, Bertolucci foi fiel ao livro (cujo autor, Amanitti, colaborou no roteiro do filme) e manteve sua ação quase toda restrita a esta célula mínima, microcosmo de um mundo a ser descoberto: o apartamento/porão.

Bem construída, meticulosamente pensada para retratar a claustrofobia que se torna 'claustrofilia', a narrativa de Io e Te traz um típico Bertolucci, sempre interessado em construir uma cenografia que funciona quase como uma extensão da psique de seus personagens, sobretudo quando, como em Os Sonhadores (de 2003), o universo em que se passa a ação é diminuto e delimitado.

Em Io e Te, o diretor acerta ao construir o mundo de Lorenzo e Olivia em um único cenário. "Não havia outra solução. Para entrar no porão, como fez o personagem, é preciso saber que ali vai acontecer algo de muito importante. Desde então, este porão começa a perder sua dimensão de prisão. Em geral, pensaríamos que um garoto que fica trancado este tempo todo sentiria claustrofobia, mas ao contrario disso, ele sente claustrofilia, sente-se à vontade, longe do mundo", explica ele.

Ainda que o espaço seja mínimo, a mudança é máxima. "Ao fim dos sete dias, ele se sente diferente. Muda. A irmã abre para ele um mundo real, ainda que doloroso. E então o buraco em que ele havia entrado começa a se abrir. O porão é só um espaço de construção. Para mim foi um desafio delicioso fazer um filme em um único lugar. Logo eu, que já fiz tanto filmes em cenários vastíssimos", conclui.

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