Sonhos para realizar em 2018

Acho que vou ter um coelho em 2018, mas ele vai morar na casa dos meus pais

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2017 | 02h00

Depois de muito refletir acerca das minhas resoluções para o ano que se inicia, decidi que 2018 será o ano da realização dos sonhos que eu tive ao longo da minha infância. Não se tratam dos meus sonhos de mulher (tentando ser) adulta – carreira estável, viagem ao Japão, conta bancária serena, família estruturada, barriga que não dobra quando senta, esses são sonhos de muito difícil implementação e terão que aguardar até meados 2030 –, mas tratam-se, sim, dos sonhos que eu tinha aos 4, 7, 10, 12 anos e que, por alguma razão, se perderam no meio do caminho. 

Vou começar pelo persistente sonho que eu tinha de nadar em chocolates. Mas não era qualquer chocolate, eram aqueles da caixinha azul de especialidades Nestlé, que eu dividia com meus irmãos, entre tapas e beijos. Meu sonho era que meu quarto fosse inundado de embalagens de Charge, Chokito, Prestígio, Lollo, Alpino, Sensação, até cerca de um metro de distância do teto. Eu me imaginava nadando em cima dos chocolates, boiando em cima deles, olhando, satisfeita, para a luminária branca. A questão nem era poder comer dezenas de chocolates. Era nadar. Simplesmente nadar. Isso, em 2018 eu pretendo nadar em chocolates.

O segundo sonho era o coelho. Já falei mais de uma vez sobre esse assunto. As filhas do Paulo tinham um, branco e cinza. Eu e minha irmã não atentávamos para o fato de que elas tinham um coelho que morava no belo sítio da família, correndo no gramado, e implorávamos para que meus pais nos dessem um coelho para morar dentro de casa. Meus pais – os grandes vilões daquela triste história dos leporídeos não conquistados – diziam assertivamente que não. E assim foi. Por isso, decidi que vou ter um coelho em 2018. Mas não gostaria que fosse na minha casa. Hoje entendo minha mãe. Talvez ele possa morar no escritório. Acho que vou ter um coelho em 2018, mas ele vai morar na casa dos meus pais. Quem sabe 20 anos depois eles topem.

O terceiro sonho era um buggy rosa. Sim, aqueles carrinhos sem vidros que são usados nos passeios nas dunas de Jericoacoara. Simplesmente cismei, aos meus 8 anos, que queria ter um buggy cor de rosa para andar pelas ruas de São Paulo. Seria bom aproveitar que não tenho carro em Lisboa e comprar um buggy rosa para transitar entre a Praça do Saldanha e o Mosteiro dos Jerônimos ou entre a Praça do Comércio e Estádio da Luz. Já estou até vendo o sucesso que será, especialmente em dias chuvosos de inverno.

Outra coisa com a qual sonhei durante anos foi com uma fonte que eu via numa loja na Avenida dos Bandeirantes. Uma fonte imensa, redonda, com uma ninfa qualquer no topo, cuspindo água pela boca, ótima para o centro de um enorme jardim. Mas eu não queria que ela ficasse em qualquer lugar: tinha que ser dentro do meu quarto. Ocorre que meu quarto era um cômodo de pouquíssimos metros quadrados, certamente três vezes menor do que a fonte. Mas isso não importava, eu queria a fonte e ponto. Perguntava para a minha mãe se eles podiam me dar aquela fonte de aniversário. Em 2018 comprarei uma fonte imensa para o meu quarto. Sim, para o meu quarto no centro de Lisboa no qual há uma cama king size ocupando 85% do espaço, restando 15% para andar esbarrando no meu marido enquanto tentamos chegar à porta. Uma bela e grande fonte. Vai ficar ótimo.

Pensando bem, aquela história de carreira estável, viagem ao Japão, conta bancária serena, família estruturada e barriga que não dobra quando senta talvez não seja tão difícil assim. Mais trabalho, mais economia, menos comida, mais paciência, mais exercício físico. Tá parecendo levemente mais viável do que inundação de chocolate, coelho, buggy e fonte no quarto. Desculpe Ruth de 7 anos, acho que em 2018 não vai dar. Quem sabe em 2030, quando eu for magra, rica e bem-sucedida, OK?

 

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