Sonhos em meio ao caos

Per Petterson, ficcionista norueguês, constrói relato entre inocência e maturidade

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

Extraordinário é pouco para descrever o talento narrativo do norueguês Per Petterson. O seu último romance, I Curse the River of Time, aponta para qualidades escassas na ficção contemporânea. Em primeiro lugar, é exímio contador de estórias. Seu foco é no desenvolvimento do personagem e ele tem cuidado extremo com o arco da trama. Parece óbvio, mas com a exceção saudável de alguns poucos escritores, o árduo engenho de narrar uma estória tornou-se arte perdida.

Depois, há a forma como Petterson faz isso. O excessivo século passado criou um fetiche intelectual: a dificuldade. Complexidade virou sinônimo de dificuldade, e legibilidade se tornou o índice de estreiteza de ideias. Nada é tão complexo a ponto de não ser resolvido em termos claros e objetivos. Em muitos romances, a impressão é que o escritor é mais um torturador que cúmplice. Petterson é um escritor profundo, que expõe o coração convulso de suas personagens, mas jamais se coloca entre o leitor e o mundo que cria.

A trama de I Curse the River of Time se passa no ano de 1989. Retomando Arvid Jansen, protagonista do romance In The Wake, Petterson narra comovente estória de diluição de balizas: Arvid encontra-se no olho da tormenta - a URSS acaba de se dissolver e o sonho do comunismo torna-se um desejo difícil de sustentar; sua esposa quer o divórcio, o que significa perder contato com as filhas que dão sentido a seu cotidiano; e sua mãe, com câncer, decide se retirar para uma pequena fazenda. O livro narra o encontro de Arvid com a mãe, e não perde de vista a atmosfera absurda em que o personagem tem que transitar em sua peregrinação.

Ao mesmo tempo, na condição de relato de um homem na corda-bamba e com o propósito de expor o que representou o fim do socialismo para uma geração de sonhadores, I Curse the River of Time constrói uma geografia sentimental da Europa. Seu verdadeiro tema é a passagem do tempo e a luta entre inocência e maturidade. Petterson é fascinado pela superfície do mundo. Em seus romances, pessoas fazem coisas, trabalham e vivem dentro do universo de suas ocupações. Eles tocam o mundo e o manipulam fisicamente.

Que Petterson use apenas 200 páginas para fabricar um engenho narrativo tão repleto de sentidos, de vida e energia só coloca ainda mais seu nome no proscênio, com Andreï Makine, Javier Marías, Wilhelm Genazino e Peter Nadas, dos autores contemporâneos europeus incontornáveis.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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