Sonhos e sonhos

No ocidente de todas as racionalidades (inclusive as irracionais, voltadas para a destruição como premissa médica, missão civilizadora e imperiosa necessidade), os sonhos sempre foram ligados ao futuro. Ao que pode ou, nos casos dos adivinhos mais radicais, ao que vai ocorrer.

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2012 | 03h07

Não é, pois, por acaso, que quando Freud contestou essa "verdade verdadeira", ao mostrar que os sonhos falavam mais do passado, e do que estava dentro de cada um de nós, do que do mundo exterior e dos eventos vindouros, ele causou tanta celeuma. Antes dele, o maior intérprete de sonhos do nosso universo judaico-cristão-capitalista-marxista-leninista-fordista-nazista-populista-chapliniano-pós-contemporâneo... (pense e acrescente o que você quiser, caro leitor...) era o bíblico José do Egito, revivido em quatro volumes de 400 páginas cada um por Thomas Mann. Se o genial Lévi-Strauss realizou a façanha de interpretar mitologicamente, nas suas mitologias (quatro volumes de 400 página cada - eis o número quatro novamente), mais de 800 mitos dos ameríndios, circunscrevendo-os em fórmulas canônicas e revelando aspectos surpreendentes do chamado "pensamento selvagem"; Thomas Mann realizou o inverso: ele transformou um mito sagrado numa meditação independente de prova teológica ou política - essas legitimações ancoradas na autoridade suprema, indiscutível e anti-humana, como gostam os idiotas - cerca de 25 versículos do Gênesis. Fez de versículos para serem lidos num templo um romance que fala direta e pessoalmente à alma e ao coração de um leitor, não de um crente. Escreveu um sonho feito não de mitos pensando mitos, mas de um mito repensado como uma narrativa humana, na qual a afeição ou o amor pelos outros é o fio. Na literatura não se prova nada - exceto o amor do sonhador pelo sonhador que lê. Eis sonhar pelo sonhar. Esse ato exclusivamente humano realizado por quem joga fora toda uma vida pintando, compondo, lendo, ensinando e pelo tal "amor à arte". Esse amor que não precisa de registro, reconhecimento ou memória. Coisas de quem corta a orelha e confunde meios e fins, de quem destroca sonhos e realidade...

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Quem joga no bicho, essa brasileiríssima instituição encoberta pela nossa notória mendacidade oficial, sabe que um dos melhores palpites para "acertar" num bicho e ganhar uma bolada é um evento impossível de ser programado. Um sonho nítido, a morte súbita de um ente querido, um acidente de automóvel envolvendo uma celebridade, a data de uma cobrança esquecida. Tudo o que é desenhado pela mão invisível do imprevisto, do acaso ou da inocência, é um bom palpite. É um aviso esperançoso. Pode transformar uma pessoa comum em um barão acima das leis e da necessidade de trabalhar.

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O melhor palpite é feito do casamento do imprevisto (quase sempre doloroso) com a esperança. O que, na maioria dos casos, constitui o infortúnio e promove o ódio, a frustração, a culpa e o ressentimento - esses demônios recorrentes da vida. O jogo atrai porque, entre outras coisas, ele possibilita arriscar na ausência do acaso. Se tudo segue uma ordem, se tudo foi planificado, se o dia de ontem foi tranquilo, por que não se pode acertar num evento futuro? O sonho previsível, porém, pode virar o infortúnio que leva a uma dolorosa questão: por que ocorreu comigo? Essa é a pergunta que consome as cosmologias porque ela denuncia (ou anuncia) catástrofes e, simultaneamente, abre a pessoa ou o sistema aos êxitos de emergência. O jogo do bicho me ensinou, por intermédio de minha avó Emerentina que teve dois maridos, o primeiro morto por assassinato, perdeu mais filhos do que comanda qualquer carma ou holocausto, mas não abandonou o gosto de viver e jogar - há diferença? -, só no despotismo é que não há fortuna sem infortúnio; ou domingo sem segunda-feira.

No livro A Ponte de São Luis Rey, Thornton Wilder trabalha esse problema por meio do irmão Junípero que, como o antropólogo inglês Edward Burnett Tylor, criador do conceito de cultura e inventor da antropologia da religião, entendia que "se há leis em algum lugar, deve existir lei em toda parte". A determinação dos destinos era o foco do franciscano que fazia uma tabela dos pecados e virtudes dos seus paroquianos. Alfonso tinha a nota 4 em bondade e em piedade, mas 10 em trabalho pelo bem comum; Vera, porém, tinha 10 em trabalho pelo bem comum e piedade, mas 0 em bondade! Não havia coerência: as ações humanas mais precisas têm consequências imprecisas.

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Há lógica na alternância do dia e da noite - exceto nos eclipses. O problema é que não há ser humano que não precise de uma lua azul ou de um sol camuflado. Ou de chuva com sol. O problema não é o infortúnio que marca a maioria das vidas. É como eles são tratados. Por isso o sonho tem que ser sonhado - interpretado - como José fez com o deus rei faraó. Anos de fartura se seguem a anos de penúria. Os cavalinhos continuam correndo e os cavalões comendo, como na poesia de Bandeira. E nós vamos continuar assistindo a essa medíocre ladroagem geral sem dizer nada? Sem sonhar?

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