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Sonhos de uma noite de verão

O professor (ou professora, as mulheres eram/são a imensa maioria na pedagogia) entrava, todos se levantavam, quietos.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2015 | 02h00

Cumprimentava, todos respondiam. Então, podíamos nos sentar. Começava a chamada pela ordem alfabética. Diante do silêncio, após um nome, o professor repetia, olhava a classe, indagava: Sérgio Fenerich não veio? Então marcava ausente com letra vermelha. No dia seguinte, o professor indagava de Fenerich, o mais inteligente, silencioso e aplicado da classe, o porquê da ausência. Ele levava um bilhete do pai, da mãe ou da irmã mais velha, justificando. Ou do Posto de Saúde. Não levasse, sabia que o pai seria comunicado de sua falta, gazeta ou falhão. A expressão bater falhão era comum. Falhões demasiado frequentes eram levados ao conhecimento da diretoria e o pai se via chamado à escola.

Durante a aula, imperava o silêncio. Nada de ficar conversando com o companheiro (ou companheira, várias escolas eram mistas). Podia ter um ponto a menos na nota, podia ser mandado para fora da classe. No pátio (ou no quintal, dependendo da escola) solitário, o sujeito ficava zanzando e era inquirido pelo inspetor de alunos ou mesmo pelo pai da dona da escolinha: o que está fazendo aqui? Por que foi mandado para fora?

Havia provas mensais (às vezes, semanais, eram as temidas sabatinas) e exames semestrais e anuais - inclusive exame oral, temido -, e havia reprovação e segunda época. Ser reprovado em duas matérias significava voltar no ano seguinte e refazer tudo. Três reprovações seguidas e você estava jubilado, quer dizer, expulso, vai aprender na vida. Havia professores temidos e professores bonzinhos. Estes deixavam colar. Mas suas provas eram ardilosas, ou você sabia ou caía na armadilha preparada. Colava-se, sim. Mas não havia celulares, aparelhos tecnológicos, que de fora passavam as matérias, nem quadrilhas organizadas fraudadoras. 

Os professores de português eram essenciais. Redação havia desde o primário, hoje fundamental, até o último ano do científico (até hoje, não entendo por que fui cursar o científico) ou clássico (final do colegial). Também os de matemática eram muito considerados, para usar uma palavra tão cara ao saudoso Moacyr Japiassu. Havia trabalhos manuais e canto orfeônico. Ainda tivesse canto, esses sertanejos de fancaria fariam coisa melhor. Havia também, não vou negar, professores muito ruins, que entravam, abriam o livro e liam, liam, liam e a gente dormia ou lia também outra coisa ou ficava escrevendo bilhetes para a provável menina, que supúnhamos sentar-se na mesma carteira em outro período. Princípio do torpedo ou do WhatsApp. 

Muitas vezes, era um homem respondendo como mulher para outro homem, motivo da maior gozação, quando tudo se explicava. Igualmente, princípio da correspondência pela internet em que a identidade do outro nem sempre é verdadeira. Nas brincadeiras, ou jogos, quando aconteciam desentendimentos, pontapés maldosos, socos, gravatas - os grande adoravam dar gravata nos pequenos -, a questão era resolvida interpartes, na hora, ou depois da aula. “Te espero lá fora” era expressão comum e temida. Mas resolvia-se ali, aprendemos a solucionar nós mesmos nossos pequenos problemas de vida, não havia diretor, psicólogos, terapeutas, analistas, conselho de professores, a menos que fosse muito grave. 

Grave era fumar no banheiro. Grave foi, certa vez, o grupo de meninas que entrou no banheiro masculino, agarrou um moleque tido como atrevido, enfiou a cabeça dele no vaso e puxou a descarga. Vieram pais, tios, avós, mestres, secretários, um bafafá. Hoje, teria a maior mídia. Vejo hoje aquelas mulheres do banheiro, são avós respeitáveis (o que é ser respeitável?), não se tornaram marginais nem meliantes.

Nos recreios, misturavam-se crianças do jardim da infância, garotos e garotas de 6, 10, 12 anos, cada um brincava de um jeito, se relacionava de outro, havia brancos, negros, amarelos, mulatos, loiros, ruivos, albinos (apelidados palha de aço, respondiam: inveja pura, sou diferente de vocês, branquelos), aprendemos ali as diferenças entre pessoas e idades e jeitos, maneiras de ser e de agir, havia os pacíficos e os violentos. Um dos mais rebeldes, foi diretor de banco e tornou-se empresário de sucesso, morreu rico. Daqueles grupos de estudantes, saiu até um presidente do Supremo Tribunal Federal, Sidney Sanchez. Admirávamos os “adultos”, queríamos ser como eles. Um menino de 15 era um “adulto”, na minha cabeça.

Sonhos de uma noite de verão. Nostalgias? Ou resquícios de um país cujo ensino se arruinou com a ditadura e veio sendo demolido por governos ineficientes com a corrupção, a sede de poder, os projetos de mudança feitos de afogadilho, implantados em algumas semanas, sem discussão com pais, educadores, especialistas, pedagogos de categoria, pesquisadores? País onde professores têm salários baixíssimos, são ameaçados, agredidos, processados por pais de alunos reprovados. Quantos, in extremis, desistem de lecionar? Ah, juro que neste momento Anísio Teixeira, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Fernando de Azevedo (e por que não Nísia Floresta?), entre outro, estão virados de costas nos caixões, horrorizados.

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