Tonica Chagas/Estadão
Tonica Chagas/Estadão

Sonho de menina

Bibi Ferreira realiza antigo desejo e leva a Nova York, aos 90 anos, o espetáculo 'Bibi in Concert', no Lincoln Center

TONICA CHAGAS, ESPECIAL PARA O ESTADO, NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2013 | 02h17

Ansiosa e entusiasmada, com a mesma sensação que faz gelar os estreantes, mas com o bom humor de uma pessoa feliz, aos 90 anos de idade e 72 de palco, Bibi Ferreira vai realizar um sonho da sua meninice, do tempo em que estudava num colégio britânico no Rio e assistia várias vezes a um mesmo filme para aprender músicas em inglês. "É aqui que eu queria chegar e cheguei. Levou um bocado de tempo, por sinal...", considera e ri a artista brasileira que, domingo à noite, se apresenta pela primeira vez em Nova York.

Previsto para o fim de novembro passado e adiado por causa do rigor do inverno na cidade, Bibi in Concert, o mesmo show em turnê pelo Brasil há dois anos como Bibi - Histórias e Canções, tem apresentação única dia 14 no Alice Tully Hall, teatro de 1.086 lugares do Lincoln Center, o maior complexo cultural da capital dos musicais. Responsável pelas primeiras montagens deste gênero no Brasil, nas décadas de 1960 e 1970, como atriz e diretora de peças como Minha Querida Dama (My Fair Lady), Brasileiro, Profissão Esperança, O Homem de La Mancha e Gota D'Água, Bibi se diz nas nuvens e gloriosa por poder mostrar aos americanos o que aprendeu com eles. "Nova York mete medo a qualquer um e sei que tenho uma responsabilidade muito séria em cantar aqui, mas ela é calcada há muito tempo, de muita vontade, de muito trabalho, de muita experiência em outros países."

Além de tudo o que ela fez em teatro, televisão e cinema no Brasil desde 1941, quando estreou profissionalmente com o pai, o legendário ator Procópio Ferreira (1898-1979), Bibi soma ainda ter interpretado a francesa Edith Piaf para os franceses, a portuguesa Amália Rodrigues para os portugueses (a pedido da própria fadista) e ter emocionado plateias argentinas cantando tangos. Parte dessa trajetória profissional está sintetizada em Bibi in Concert.

O show traz músicas em português, inglês, espanhol e francês, de espetáculos da Broadway, de compositores brasileiros como Haroldo Barbosa, Lupicínio Rodrigues, Tom Jobim e Chico Buarque, e dos shows em que Bibi reinterpretou canções de Edith Piaf e Amália Rodrigues.

Bibi in Concert é aberto por duas músicas interpretadas só pela orquestra de 21 instrumentistas (quatro deles brasileiros e os demais arregimentados em Nova York): Flor da Idade, de Chico Buarque, e Malandragem, de Cazuza e Frejat. Se nessa escolha há alguma ironia em relação à idade de Bibi, ela diz que "é do maestro Flávio Mendes, que não presta", porque foi ele que as escolheu. Mendes, como todas as pessoas que admiram a vitalidade dessa senhora que se sente "com no máximo 25 anos de idade", diz que "a voz dela está melhor do que há 20, 30, 40 ou 50 anos".

As histórias e canções selecionadas são, segundo Bibi, inspiradas na pergunta que ela fez a si mesma: teria feito tudo o que queria? No programa do show no Lincoln Center ela responde: "A carreira de um artista é feita de oportunidades que aparecem, pelos convites que surgem, por desafios que enfrenta - além do eterno descontentamento que o acompanha na busca pela excelência". Uma parte do show reúne canções de musicais que ela não fez. "Não fiz porque não tive a oportunidade ainda - olha bem a palavra!", alerta Bibi, enfatizando o advérbio. Pessoa religiosa, que traz sempre uma medalha de prata do Sagrado Coração de Jesus numa corrente pendurada no pescoço, ela agradece a Deus os talentos que tem e completa: "Nosso Senhor é meu contemporâneo!"

Na entrevista coletiva que concedeu no fim da tarde de segunda-feira, no consulado brasileiro, Bibi divertiu-se com os elogios à sua vitalidade e comentou: "Sou uma artista que tem muita idade, mas também muita saúde. Então, estamos aqui para aguentar qualquer coisa que venha". Depois da entrevista, ela recebeu do cônsul Luiz Felipe de Seixas Corrêa o Brazilian International Press Awards. O prêmio, criado em 1997 pelo produtor baiano radicado nos EUA Carlos Borges, homenageia personalidades, instituições e iniciativas que se destacam na promoção artística, cultural e imagem positiva do Brasil.

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