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Sonho Bollywoodiano

Beatriz Seigner fala da primeira coprodução entre Brasil e Índia e diz que seu filme é um 'bollywood spaghetti'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2011 | 00h00

É um sonho bollywoodiano - o título do longa de estreia da jovem (26 anos) diretora Beatriz Seigner não poderia ser mais adequado. Aos 18, Beatriz, que estudava dança indiana, foi à Índia na cara e na coragem. O que viu marcou-a profundamente: "Foi um carimbo em minha vida", define.

Decidida a se tornar cineasta, a (ex? sempre?) dançarina voltou ao país e fez Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano, que estreou na sexta-feira. O filme não é somente a primeira coprodução entre Brasil e Índia. A Beatriz pode-se aplicar o que os críticos disseram sobre Robert Rodriguez, quando fez El Mariachi. Beatriz realizou o melhor filme feito no Ocidente sobre a Índia, por apenas US$ 20 mil (Rodriguez havia feito o filme dele com US$ 7 mil, mas não precisou viajar quase ao outro lado do mundo).

Fazer o filme foi uma aventura que deu certo. Vê-lo em cartaz é outra aventura, e talvez maior ainda. Na sexta, Beatriz comprou seu ingresso e, anonimamente, foi testar a reação do público na primeira sessão do Espaço Unibanco. Havia 13 pessoas na sala. Reagiram como a diretora esperava - riam nas horas certas, dava para sentir até a emoção. Mas Beatriz não teve coragem de se identificar e falar com seu público. "Na próxima vez, vou seguir as garotas na toalete para ver se ouço comentários", anuncia.

O mistério da Índia atraiu grandes autores como Jean Renoir e David Lean. O primeiro fez, no começo dos anos 1950, O Rio Sagrado. O segundo, nos 80, fez o último de seus grandes filmes - Passagem para a Índia. O que o país tem de tão fascinante? Diversidade cultural, religião, filosofia.

Beatriz, que já vivera entre os índios do Brasil, os xavantes, foi em busca da Índia eterna. Ela ficou seis meses olhando e registrando tudo o que podia. Tomou um choque. A cultura indiana resiste - e o rito de lançamento do deus Ganesha no mar continua sendo praticado -; ao mesmo, tempo a globalização cobra um preço alto. "Vi o comercial de um cosmético que oferece a alternativa de branqueamento da pele das indianas. Muitas delas estão querendo ter a pele branca das ocidentais."

Beatriz conta que uma série de felizes coincidências, somadas à persistência, lhe permitiram fazer o filme. Quando foi à Índia, em 2002, ela pretendia fazer um curso de cinema, que foi cancelado naquele ano. Ela permaneceu na Índia, trabalhando num hospital, depois viajando. Viu muita coisa que a impressionou - e um filme, O Terrorista, que não pôde assistir até o final. De volta ao Brasil, anos depois, soube que O Terrorista passava na Cinemateca. Não sabia, descobriu na hora, que o produtor do filme, Ram Prasada Devineni, estava na sala. Nasceu ali a aproximação que levou a que ele coproduzisse Bollywood Dream, proporcionando a infraestrutura de que ela iria precisar no país.

Mesmo assim, Beatriz precisou fazer um empréstimo de US$ 20 mil para financiar as passagens e despesas de viagem. O filme é sobre três amigas, Paula Braun, Lorena Lobato e Nataly Cabanas, que querem ser atrizes no exótico cinema musical indiano. O roteiro tem muito de improvisação e de documentário. É sobre as descobertas íntimas que essas garotas fazem num mundo que não é o delas. Beatriz brinca - diz que é um "Bollywood spaghetti", porque ela usa elementos do cinema indiano, mas sem fazer, realmente, Bollywood.

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