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Sonhar o futuro

Nas obras de ficção existe uma crítica ao mundo que se vive e uma utopia/distopia pela frente

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

19 de janeiro de 2022 | 03h00

Antecipar o futuro contém chance alta de erro. Quem poderia ter avaliado a experiência pandêmica de 2020/2021 alguns meses antes da crise? Apesar disso, muitos autores conseguiram prever características do que estava pela frente. Intuição? Palpite aleatório? Pessoas com dom de vidência?

Júlio Verne descreveu ficções próximas do que encontramos, em especial no livro Paris no Século XX. Aldous Huxley fez o mesmo com seu Admirável Mundo Novo. Cada vez mais, a robótica torna os livros de Isaac Asimov próximos da realidade. Para não entrar tão densamente na literatura: na infância, a gente via os Jetsons e havia consultas e reuniões por vídeo. Como sempre, nas obras de ficção existe uma crítica ao mundo que se vive e uma utopia/distopia pela frente. 

Em épocas pessimistas como a nossa, costumamos pensar em futuros terríveis. Exemplo? Quais os impactos da implantação de um chip direto no cérebro como Elon Musk pretende? Se isso representar um salto de memória e de capacidade será que, em breve, entrevistas de emprego apenas selecionarão quem tiver um bom chip? Ainda faz sentido falar em controle na nossa sociedade com essa tecnologia? O que controlamos hoje? Pior: um mundo controlado diretamente por um empreendedor inteligente será pior do que o nosso onde os controles ainda são indiretos? 

Então: quando alguém lê borra de café, coloca cartas de tarô ou joga búzios, associamos tais ideias de antecipação como parte do imenso universo do “pensamento mágico”. Porém, muitos avanços possuem origem em uma espécie de delírio (um sonho, devaneio lúcido ou inspiração prática) como simbolizamos em Arquimedes na água ou a queda da maçã perto de Newton. No cérebro desses gênios, algo que vinham pensando encontra uma iluminação e uma lei abre caminho para o futuro. 

Na Bíblia, há dois Josés que lidam com sonhos proféticos: o do Egito e o marido de Maria. O do Antigo Testamento interpretou o mundo onírico de funcionários reais e, depois, do próprio faraó. A arte de decifrar o fez sair da prisão e subir na carreira. O sonhador do Novo recebeu inspirações noturnas e soube da inocência da noiva, do risco enfrentado pelo filho recém-nascido e da possibilidade de retornar a Nazaré. 

Quem ousa imaginar o futuro ou sonhar em janeiro de 2022? Estamos muito carentes e amargos. Tenho sonhado com a esperança, ainda sem chip.

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