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Somos todos do Pedro II

Para Nelson Rodrigues, os alunos do colégio eram ‘uma força da natureza’

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

11 de maio de 2019 | 02h00

Fiquei particularmente emocionado com o protesto dos estudantes contra o bloqueio no orçamento da Educação, na última segunda-feira. Ainda mais porque protagonizado, no Rio, por alunos do Colégio Pedro II, e nas barbas do presidente, que então celebrava, no Colégio Militar, os 130 anos daquela instituição de ensino. 

“Educação não é mercadoria!”, gritava a estudantada, àquela altura ainda alheia à promessa presidencial de isentar de bloqueios e cortes as escolas militares e multiplicá-las pelo País afora, concretizando seu obstinado desejo de transformar o Brasil num imenso quartel. 

Rompida a letargia, espera-se que os estudantes voltem mais vezes às ruas para exercer o mesmo papel que tiveram em outros momentos cruciais da história republicana. Com estudantes não se brinca. Mesmo coagidos, reprimidos, presos e mortos, eles sempre acabaram vencendo. Foi assim no Estado Novo, na crise da posse de João Goulart, na ditadura militar, no governo Collor. 

A autêntica balbúrdia estudantil – não aquele “kit gay” replicado pelo ministro Abraham “Franz Kafta” Weintraub para justificar seus punitivos e ideológicos estrangulamentos orçamentários – está apenas começando. 

Fiquei particularmente emocionado com o protesto porque fui aluno do Pedro II; e sobremodo surpreso com a solidariedade de alguns estudantes do Colégio Militar, eternos rivais da garotada do Pedro II. “Ele não!”, gritou Marina Reis, aluna do CM, fardada para a ocasião, seguida por colegas que também viralizaram na internet. Parabéns às moças do CM, que, espero, acabaram com uma secular e tola rivalidade. 

Considerado o “colégio padrão do Brasil”, a pedra angular de nosso ensino médio, no Pedro II estudaram e ensinaram algumas das inteligências mais fulgurantes do País. Isso desde 1837, quando o fundaram e batizaram com o nome do infante imperador, então com 12 anos, por coincidência a mesma idade que eu tinha ao iniciar o que na época chamavam de curso secundário. 

O Pedro II foi minha alma mater. Passei lá sete anos, de 1954 a 1960, lá me eduquei para o resto da vida e até sacramentei minha escolha profissional ao assumir a edição de A Chama, jornal do Grêmio Científico e Literário do colégio. 

Era um funil o exame de admissão: 5.000 candidatos para 500 vagas. Estudava-se muito, média de dez matérias, algumas (português, história, geografia, línguas, latim inclusive) mantidas no currículo do primeiro ano do Ginásio ao terceiro do Clássico e Científico. Mesmo no Clássico aprendíamos matemática, física e química. Grego era opcional. 

Acabou-se o que era doce. Há muito tempo. E no que restou o atual sinistro da Educação vai dar um jeito.

Ainda hoje lamento não ter sido aluno de, por exemplo, Manuel Bandeira, mas tive mestres inesquecíveis, como os professores de História Renato Azevedo e Eugênia Damasceno Vieira Prado, ambos cassados pelo golpe de 64, e o músico Homero Dornelas, afamado parceiro de Almirante no samba Na Pavuna, com o pseudônimo de Candoca da Anunciação. 

“Uma das mágoas que eu tenho na vida é a de não ter sido, na minha infância ou juventude, aluno do Pedro II”, confessou numa crônica Nelson Rodrigues, que vivia a incensar o colégio (“um estado de alma”) e seus alunos. “Um aluno do Pedro II, mesmo sem uniforme, é inconfundível, não é parecido com ninguém”; “quando vejo um tomando carona de bonde, ou fazendo barulho, eu não me irrito; pelo contrário, a minha reação é de pura inveja, de atroz despeito”. 

Nelson deslumbrava-se com a nossa balbúrdia, uma “bagunça generosa, criadora, vital”. Éramos, para ele, “uma força da natureza”. Com um inigualável lastro de ativismo político. Inclusive fora do Rio. Um grupo de estudantes do Pedro II deslocou-se até São Paulo para expressar apoio ao movimento constitucionalista de 1932. 

Na relativa calmaria dos anos JK, peguei apenas uma balbúrdia: a greve dos bondes de 1956. Bela e inesquecível bagunça, animada por partidas de pingue-pongue em mesas armadas sobre os trilhos dos bondes. Se puserem ordem nisso, “o Brasil será muito menos Brasil”, pontificou Nelson. E a greve foi até onde devia ter ido.

Para se ter uma ideia da qualidade do ensino do Pedro II e do país cheio de esperança em que vivíamos, no primeiro ano do Clássico (média de idade: 16 anos) aprendíamos literatura quinhentista. Com ninguém menos que o professor Serafim da Silva Neto, um de nossos melhores filólogos e o maior linguista do País depois de J. Mattoso Câmara. 

Em determinado mês do ano, nosso seráfico professor de português nos impôs, como prova, valendo nota, uma narrativa ficcional em estilo quinhentista. Ninguém da classe recuou do desafio.

Pensei no bispo Sardinha devorado pelos caetés e bolei uma aventuresca história de naufrágio, evidentemente mais influenciada pelo Defoe de Robinson Crusoe do que pelo Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, que nunca lera na vida. Dois náufragos portugueses perdidos na mata da costa alagoana, com os caetés no seu encalço – era este o plot de “Tribulações de Dois Náufragos”.

Não me lembro mais do seu desfecho, só da trabalheira que me deu estudar o tipo de vegetação do Pontal do Coruripe, para não cometer alguma impropriedade botânica, e dos percalços para imitar a alambicada prosa quinhentista, checando até a datação de algumas palavras. Por sorte, “tribulação” já existia em nossa língua desde o século 13. 

Quando, décadas atrás, contei esse pitoresco episódio a Silviano Santiago, mestre em literatura aqui e além-mar, ele arregalou os olhos e, sem desfazer seu espanto, comentou: “Hoje isso não aconteceria nem no mestrado em língua portuguesa”.

O pior é que piorou. E querem piorar ainda mais.

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