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Somos muito mais ricos do que pensamos

Não sei explicar o que me levou a desejar uma boa semana a ela dizendo que minha janela do escritório dá para uma rua que é caminho para o instituto médico legal de Lisboa, o que faz com que eu seja agraciada várias vezes por dia com carros funerários parados na minha frente

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2017 | 03h00

Era uma manhã de sol do verão europeu. O céu azul de Lisboa chegava a ser ostensivo. Nem a nuvem mais persistente poderia ameaçar aquela imponência. Me vesti com roupas claras, passei filtro solar numa sarda desenfreada que vem crescendo na minha bochecha, entre as demais pintas que se espalham por essa cara branca. Sim, achei que podia ser câncer de pele, mas a dra. Sílvia disse que está tudo bem. E, se ela diz, eu acredito, é assim há 20 anos.

Caminhei feliz por entre aquelas cores gratuitas e vibrantes que tornavam o dia uma verdadeira pintura. Até aquele horroroso prédio da Polícia Judiciária – nada harmônico com os ares de Lisboa – parecia simpático naquele início de dia. Desci a Duque de Loulé com os olhos apertados contra o sol e virei à esquerda na Gonçalves Crespo, como de costume.

Ao chegar ao escritório, abri a cortina branca e olhei para os transeuntes da Rua Luciano Cordeiro. São quase sempre os mesmos. O chinês do restaurante, o nosso vizinho de sala, a Dona Múmia e o garçom da Camacha. Sentei-me à frente da minha mesa, fiz as contas do fuso horário, liguei para minha mãe para ouvir sua voz e, na sequência, mandei uma mensagem para minha Tia Regina, desejando boa semana.

Não sei bem por que, naquele momento, achei que deveria contar aquela esquisitice para a Tia Rê. Sim, ela é médica e já trabalhou como legista, mas não sei explicar o que me levou a desejar uma boa semana a ela dizendo que minha janela do escritório dá para uma rua que é caminho para o instituto médico legal de Lisboa, o que faz com que eu seja agraciada várias vezes por dia com carros funerários parados na minha frente. Não era uma mensagem muito usual para uma manhã de segunda-feira.

Como se aquilo não bastasse, disse ainda que aqui em Lisboa há algo bastante peculiar, que é o fato de os carros funerários frequentemente serem todos de vidro, o que nos permite ver o caixão inteiro e ficar imaginando quem estará lá dentro. Observo o tipo de madeira, as flores que acompanham o caixão, o semblante do motorista.

Tia Rê me conhece bem o suficiente para saber que eu não me incomodo com isso, já que, desde os meus 16 anos, cismei de gostar de passear em cemitérios, o que faço com frequência até hoje. Na minha despedida de solteira, sábado passado, depois de muitas garrafas de vodca, minhas amigas queriam me convencer a ir para uma balada no centro e eu só dizia que queria pular o muro do Cemitério do Araçá. Felizmente fomos ao Mc Donald’s. Mais tranquilo.

Mas, enfim, disse à minha tia que, de fato, era uma coisa esquisita aquela dinâmica de começar a semana num dia ensolarado com 3 carros funerários passando pela minha frente em menos de 15 minutos. Era um desabafo um pouco sem cabimento, mas eu sabia que podia dizer isso a ela.

Alguns minutos depois, o celular vibrou com a resposta da minha tia. Foi como se as palavras da minha madrinha – falante e geminiana como eu – entrassem na minha sala com ainda mais força do que aqueles raios de sol desenfreados do verão. Li e reli a frase sintética, impressionada com seu conteúdo.

Tia Rê não é de florear muito seu discurso. Fala o que dá na telha, o que deve e o que não deve. Não fica investindo muito na poesia, mas a poesia, por vezes, investe nela. Era exatamente o caso daquela resposta.

“Querida Rú, fique contente por ver os carros funerários. Se há caixão, é porque houve vida.”

Li de novo. Sorri. Era uma carga realmente gigantesca de intensidade em tão poucas palavras, escolhidas sem grande esforço.

Fiquei pensando naquilo o dia todo. Toda perda só existe porque houve um ganho. Toda saudade só existe porque já houve presença.

Toda morte só existe porque já houve vida. De fato, nós somos muito mais ricos do que pensamos. Só não costumamos estar muito atentos a isso.

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