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Somos livres?

Há 200 anos, nem casamento, nem profissão eram da alçada do indivíduo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2017 | 02h00

Há poucas semanas, o Conselho Universitário da Unicamp (Consu) aprovou uma política de cotas para a universidade. Não, a crônica de hoje não é sobre cotas e seu debate, porém nasce da experiência que citei. Terminado o encontro do Consu, publiquei na minha fanpage o resultado. Tema polêmico, potencial explosivo, polarizadas as opiniões, era natural que houvesse detratores e defensores. Porém, como garanti, não focarei no tema cotas. O que me espantou foi ter constatado que muitas pessoas continuaram a debater como se a decisão estivesse no futuro ou dependesse dos internautas, especialmente entre aqueles que tinham posição contrária ao ocorrido. A maioria absoluta nem sequer era formada por funcionários, alunos ou docentes da Unicamp. 

Aprovar políticas para a universidade é da competência de alguns órgãos, entre eles, o Consu. Para chegar a ter assento lá, professores, funcionários e alunos precisam se candidatar. O organismo é, a rigor, o órgão máximo da universidade. O meu espanto era que muitas pessoas se pronunciaram na minha página dizendo que eram contrárias e que isso era ruim. Qual seria, penso eu, a utilidade de uma opinião a posteriori? Minha reflexão afastou-me do já decidido tema cotas na Unicamp e aproximou-me da ideia de participação e liberdade nas redes.

 

Poucas pessoas têm poder real em uma sociedade. Quem decide o que é substancial, quase sempre, é um núcleo reduzido. Cada um de nós tem uma área de atuação limitada e um poder restrito. O grande poder foge à maioria. Diariamente somos invadidos por taxas de juros, decisões do Copom, regras do imposto de renda, políticas de cotas, prazos para emissão de passaporte, lançamentos de novidades tecnológicas e milhares de outras coisas, grandes e pequenas, que escapam ao cidadão comum tanto no plano decisório como na simples compreensão do mecanismo. 

Paralelamente à impotência quase generalizada que sofremos com graus variados de paciência, temos o discurso da sociedade mais livre que jamais houve. Decido sobre minhas roupas, minhas refeições, meu voto, minha identidade partidária e meu casamento a partir de um mundo líquido no qual o desejo é imperador. Há 200 anos, nem casamento, nem profissão, nem o código de vestimenta (regras suntuárias) eram da alçada do indivíduo. 

Mais: minhas redes e a garantia da liberdade de expressão estão em um ponto forte. Damos opinião sobre o STF, sobre o papa, sobre artistas e livros. Podemos postar coisas do estilo “odeio Marx”! Ou “von Mises é uma fraude”! Eu destruo, na humildade do meu aparelhinho conectado, todo um sistema de pensamento. Se alguém questiona se eu sequer li a totalidade da obra dos autores, posso largar a pérola mais preciosa da ostra contemporânea: é a minha opinião! Isso vale para tudo e estamos embriagados com o gozo libertário do fluxo de consciência internético. 

Que delícia observar uma decisão de um juiz do STF que se dedica ao tema constitucional desde antes do meu natalício e lascar: ele é um babaca! Que Campos Elísios se abrem ao arcanjo da liberdade do Facebook! O mundo livre é o mundo como deveria ser. Vou trazer um pouquinho do mundo como ele é.

Ainda que a opinião pública tenha certo peso, a diluição dela na massa pode ter tornado o grupo relevante no jogo político, mas não o indivíduo da massa. Em si, eu mudo tanto o mundo como um servo da gleba no apogeu do sistema senhorial. Tal como lá, a rebelião servil (a jacquerie) poderia provocar abalos. No entanto, nem nos movimentos massivos o indivíduo único e solitário exerce o protagonismo. Para ter poder como massa, a primeira condição é submeter-se a uma liderança das massas, a um calendário de atividades e a uma orientação superior. No mínimo, é preciso aceitar um sanduíche dos organizadores...

A internet representa uma fantasia extraordinária. O Consu aprovou algo. Eu não concordo, por exemplo. Vou postar contra. Vou replicar um textão reprobatório, irei colocar uma faixa de luto no meu perfil e vou fundar um #abaixoascotas! Ótimo, exerci meu sagrado direito de liberdade de expressão, amparado no artigo quinto da nossa lei magna, inciso IV: é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato. Bem, a internet permite passar por cima do tal do anonimato e manifestar uma clara opinião sem riscos. A internet aumenta o potencial da minha liberdade. Só... que não. Veremos. 

A partir do momento em que posto minha ideia, deixo de ser um inexpressivo cidadão para me tornar um internauta com opinião. O limite entre os dois campos pode ser debatido no grande plano coletivo, todavia faz diferença para o indivíduo. Exerci um direito sagrado e claro. Tornei-me alguém e teclo um enter com a mesma convicção da cabine de votação: aqui está a pedrinha com a qual completo o muro do todo. “Eu penso assim” e, pela graça das redes sociais, minha voz ecoa nas fossas abissais do mundo virtual.

 

O objetivo não é discutir aqui se uma opinião de apoio ou de ódio é, de fato, relevante. Penso em como o indivíduo deixa de fazer outras coisas, deixa de organizar algo mais concreto (como ingressar em um partido político ou militar em algum sindicato) porque seu desejo de miniprotagonismo foi satisfeito. 

Seríamos livres de fato? Nossa liberdade teria sido conduzida ao papel de digitadores e postadores? Séculos de esforço pela sociedade de direito teriam encontrado este melancólico epílogo: gente olhando o mundo de longe, mas querendo indicar, pelas suas redes, que se sente alguém ou tem alguma importância? Seria nossa liberdade de postar uma cilada ardilosa que entorpece sentidos e, em troca da fantasia de participação, entrega em definitivo o mundo aos seus donos e agentes reais? Seria ampliar a percepção que tive há alguns anos: quem realmente tem poder não atende celular nem possui perfil no Facebook? Boa semana para todos. 

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