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Somos contagiosos

Apreendi que somos humanos justamente porque somos contamináveis e mortais

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2021 | 03h00

E contagiantes, dizia meu mentor, o pioneiro brasilianista Richard Moneygrand, hoje isolado numa empesteada Manhattan. Em suas aulas, ele citava Rousseau e Nietzsche, ampliando a apreciação de que o homem é um animal doente, justamente porque não tem um destino prefixado. Sujeito e objeto de desejos e fantasias, ele pode ser tudo de bom e de ruim. 

Apreendi que somos humanos justamente porque somos contamináveis e mortais. A consciência da transitoriedade é o testemunho das nossas contaminações. Vivemos em meio a múltiplos contágios e temos até receitas (como os casamentos, as formaturas e os aniversários) para nos contagiar.

Sendo onívoros e onipotentes, podemos ser super-heróis e deuses. Muitos de nós, aliás, nascem humanos e morrem monstros. 

O processo de “humanização” veio do contato e da contaminação nas suas formas construtivas da troca e do diálogo; e nas suas modalidades destrutivas da guerra e das endemias. Aprender com o outro ou detestá-lo; tentar fazer como ele, compreendendo, manipulando ou aperfeiçoando suas crenças é o nosso segredo de Polichinelo – finalizava o mestre.

Relações – contatos, juramentos, paixões e contratos – são contagiantes. “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és!”, dizia Goethe. A troca é a ponte que permite estar com o outro sem sair de si mesmo. A grama do vizinho é sempre mais verde, bem como – afirmava tio Marcelino – sua mulher...

Somos contagiados, mas queremos ser contagiantes como as celebridades que admiramos. O cerne da fama é a capacidade de contaminar e assim envolver os outros. 

Nossos tiques, nossas manias, fobias e predileções nos distinguem porque revelam imunidades. Tenho amigos “vacinados” contra café, pão, leite e até mesmo a saudável água de bica. Meu tio Silvio cantava: “Morte ao leite degradante / Morte à água que enferruja / Salve a Brahma, edificante!”. 

Costumes e, acima de tudo, as línguas que falamos nos constrangem, mas há sempre espaço para a “vacina” do aprendizado, da recusa ou do desvio. Daí os sotaques, as gafes, e as abstinências reveladoras de que, mesmo sem ter consciência democrática, já aceitávamos exceções sociais que são respostas aos excessos de dentro ou de fora. 

Tudo isso sem esquecer a negação das pestes políticas conhecidas como nacional-socialismo, stalinismo, os ibéricos salazarismo e franquismo e os fascismos em geral, essas enfermidades extasiadas pela morte, cujo vírus é duro de vacinar. O elo entre a contaminação político-ideológica e a peste é, desde o Jardim do Éden, e de Albert Camus e George Orwell, patente.

Em todo sistema, existem coisas que podem pegar. De onde vem a moda ou a gíria que individualiza as gerações dentro de uma mesma sociedade? Ou a malandragem que fura as regras e estabelece uma ética de ambiguidade? 

O que chamamos de “hábito” (ou praxe), esse berço de preconceitos, resulta de um inexorável contágio. Quando dois contágios se encontram, há cataclismos físicos e mentais. É o que ocorre quando você aprende desde criança a abraçar como forma de afago e carinho, mas o vírus mortal demanda isolamento e distância. Diante de receitas de vida tão contraditórias, que forma de contaminação preferimos? 

Para nós, brasileiros, isolamento é “gelo”, abandono e exílio ou morte social. Na América, ela é um valo, daí a teimosia em seguir regras. Formas de contaminação opostas às habituais prenunciam desastres. É como aprender uma nova língua ou viver com saúde sem esquecer a contaminação e a morte.

Quando assimilamos um mínimo da doença, ficamos inoculados. A vacina contra o outro (que promove incômoda ampliação ou redução da nossa humanidade) está em compreender suas razões. Construir pontes é tão difícil quanto o amor – essa doença-cura que nos perpetra humanos. Se, mesmo em escala menor, sofremos a doença do outro, pois não viramos estrangeiros de nós mesmos, saímos da dualidade de vê-lo como superior ou inferior para decifrá-lo como uma alternativa. Essa é a vacina. 

O princípio dos epidemiologistas é o mesmo dos antropologistas. A gente só se sente à vontade num outro sistema quando o assimilamos. Um mundo globalizado requer uma humanidade extensiva, capaz de diminuir (ou até mesmo apagar) fronteiras e sanar desigualdades. É preciso vacinar o mundo com o manto da humanidade, inoculando nele as velhas moléstias racistas e nacionalistas. 

Neste nosso Brasil (que estaria acima de todos!), a índole igualitária da fila é um problema porque os nossos fidalgos odeiam esperar e assim aplicam sem pudor o costumeiro e antidemocrático “você sabe com quem está falando?” e furam a fila. É o retorno de um velho dilema: a vacina liquida a doença, mas só nós – brasileiros – temos a cura do mal-estar causado por uma ética de ambiguidade. 

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

 

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