Sombrio, 5.º e melhor ´Harry Potter´ chega ao País

Filme que estréia em 750 salas mostra o lado escuro do personagem

Luiz Carlos Merten, do Estadão

07 de julho de 2011 | 09h31

É um caso talvez único na história do cinema - e da própria literatura. Em cerca de dez anos, uma autora que havia sido rejeitada por diversas editoras, J.K. Rowling, vendeu 325 milhões de exemplares de uma série de livros sobre um jovem bruxo, transformando-se no maior fenômeno de vendas do começo do século 21 (e um dos maiores de todos os tempos). Ao vender os direitos de sua criação para o cinema, J.K Rowling exigiu (e conseguiu) rigoroso controle sobre todos os movimentos de seu bruxinho na tela. Você pode imaginar o que isso representa, como limitação, para as equipes que fazem seus filmes. Os condicionamentos existem, mas também as formas de escapar à camisa-de-força. É o que prova David Yates em Harry Potter e a Ordem da Fênix, o quinto (e melhor) filme da série, que estréia nesta quarta-feira, 11, nos cinemas brasileiros.Uma estréia na quarta-feira não é comum, e menos ainda por não ser feriado (nem véspera de). O que a distribuidora Warner está querendo evitar - ou pelo menos reduzir - é a pirataria. Harry Potter e a Ordem da Fênix invade as telas brasileiras com cerca de 600 cópias, um número retumbante, daqueles de gerar protestos contra a dominação que Hollywood exerce sobre o mercado de cinema do País. AntecessoresProtestos à parte, Harry Potter possui uma legião de fãs que não se agüenta para ver seu jovem herói empunhar a varinha mágica. No quinto filme, sucedendo a A Pedra Filosofal, A Câmara Secreta, O Prisioneiro de Azkaban e O Cálice de Fogo, Harry Potter entra para uma ordem secreta - a da Fênix -, liderada por Dumbledore, para combater a ofensiva de Lord Voldemort, que está de volta, e com seus poderes renovados. Instado pelos amigos Hermione e Rony, ele forma um Exército em Hogwarts para enfrentar a diretora indicada pelo Ministério da Magia para substituir Dumbledore. O ministro assemelha-se ao Grande Irmão de George Orwell em 1984, com seus gigantescos retratos que parecem vigiar Harry Potter por toda parte - e o ministro, realmente, lidera uma campanha contra o garoto, aliado que está a Voldemort.Realmente? Parece estranho usar a palavra, derivada de real, numa série tão fantasiosa quanto a de Harry Potter. Bem, nem tanto - a grande mudança que o diretor David Yates conseguiu convencer a autora a aceitar foi o seu desejo de trazer mais realidade para a ação. Os quatro filmes anteriores eram focados na fantasia. Os dois primeiros, realizados por Chris Columbus, apenas davam a impressão de passar os livros pela câmera, com excesso de informações e um ritmo devagar, quase parando, o que só os devotos dos livros pareciam não perceber. No terceiro filme, Alfonso Cuarón não apenas acertou no ritmo como deu uma guinada muito bem sucedida para um clima mais sombrio. Com David Yates, os atores, pela primeira vez, filmaram nas ruas de Londres. Yates também caprichou nas cenas de perseguição e de lutas, que lembram o melhor do cinema de ação. Mas a grande guinada refere-se ao próprio personagem.ChoqueHarry Potter vive agora num mundo mais pessimista que nunca. Ele próprio está tendo de conviver com os problemas da adolescência. A ebulição dos hormônios o leva a trocar o primeiro beijo com Cho Chang, mas durante boa parte do tempo, injustamente acusado e perseguido, o bruxinho traumatizado fecha-se na sua solidão. Tem momentos de raiva, de impulsividade e de dúvida. Numa cena ele chega a desabafar, dizendo que, se o objetivo de Voldemort é dominar sua mente, pode ser que ele já esteja passando para o lado escuro da magia. Há um diálogo muito forte em que Sirius Black, outra vítima da campanha orquestrada pelo ministro, diz a Harry que o mundo não se divide entre bons e maus, que todos somos uma coisa e outra e o que nos define é a capacidade de escolher um lado - e agir.Finalmente, fica claro que Harry não é perfeito - e que nem seu pai bruxo também era. Quando Severo Snape lhe ensina a bloquear a mente contra as ofensivas de Voldemort, o próprio Harry penetra na mente no professor e descobre a origem do ressentimento dele contra seu pai. E não é uma descoberta lisonjeira. O quinto filme da série trata, assim, do choque da fantasia com a realidade. Harry descobre, acima de tudo, o que o diferencia de Voldemort e é o fato de ele não ser sozinho como pensa, ou teme, ser. Radcliffe: intensoA amizade de Hermione e Rony é a sua força. O filme não é conclusivo. Abre novos presságios que levam a O Enigma do Príncipe e ao próximo livro, o último da série, que sai nas próximas semanas. Harry Potter vai morrer, de acordo com a profecia de que não existe lugar no mundo para Voldemort e ele? O bruxinho atraiu para a literatura uma geração que parecia perdida para a internet e o videogame. Rowling controla para que, na tela, ele seja o mesmo dos livros. Os sete volumes correspondem aos sete estágios da mente. Harry segue na sua viagem de descoberta pessoal. O que está em discussão é o papel do ser humano no mundo. E não é só Harry quem cresce - seu público, também. O herói está ficando mais adulto, com mais conflitos internos.Um personagem complexo, angustiado, exige um verdadeiro ator para representá-lo. Daniel Radcliffe é maravilhoso. Pode-se não gostar dos filmes de Chris Columbus, mas tudo lhe será perdoado porque ele escolheu o ator e antecipou, há seis anos, que Daniel teria força para segurar a intensidade dramática do Harry atual.Harry Potter e a Ordem da Fênix. ("Harry Potter and the Order of the Phoenix", Inglaterra-EUA, 138 min.) - Aventura. Dir. David Yates. Livre. Cotação: Ótimo

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