Sombra por vezes desesperadora

Acerta altura do documentário Bolaño Cercano, de Erik Haasnoot, que tem trechos disponíveis no YouTube, comenta-se que muitos jovens autores olham para a figura (e para a prosa) do chileno Roberto Bolaño como referência. O fenômeno parece realmente sólido na América Latina: em uma simples viagem a Buenos Aires, esbarramos com entusiastas e mais entusiastas do autor. Aqui no Brasil, a influência (ou melhor: a sombra, para nos livrar dessa palavra tão caída que é "influência") não se apresenta tão palpável.

ANTÔNIO XERXENESKY, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

Claro, pode-se traçar alguma relação entre os contos metaliterários de Joca Reiners Terron em Sonho Interrompido por Guilhotina e as narrativas de Bolaño. Terron familiarizou-se desde cedo com o autor. Em outro caso mais explícito, aponta-se a confraria de escritores que confundem ficção e realidade do romance Cordilheira, de Daniel Galera, como outra marca da sombra de Bolaño no país. Entrando em território mais pessoal, confesso que situei meu romance Areia nos Dentes no D.F. mexicano por causa de Os Detetives Selvagens. A figura do narrador também foi levemente moldada com base no personagem Amadeo Salvatierra. Por fim, o livro de contos que lanço em 2011 traz muitas referências formais ao ainda inédito no país Llamadas Telefonicas.

Isso tudo, porém, não passa de riscos na superfície. Para entender a sombra de Bolaño na literatura mundial (ou ao menos na ocidental) é necessário cavar mais fundo na obra do chileno. Lembrem que grande parte de sua prosa (e de sua poesia) trata justamente da relação entre literatura e vida.

Em Os Detetives Selvagens, temos jovens querendo uma vida digna de ficção. Em Noturno do Chile, a questão central é muito mais sombria: enquanto a intelectualidade discute literatura, a ditadura militar segue forte e virulenta. Em Amuleto, torna-se claro que toda a leitura do mundo nada fez para impedir a violência na América Latina. Pelo contrário, poesia e violência "são duas faces da mesma moeda", nas palavras da narradora Auxilio Lacouture. O póstumo 2666 complexifica essa relação, e qualquer tentativa de resumo em uma só linha está fadada ao fracasso.

Bolaño, portanto, definiu novos parâmetros acerca da posição e função do escritor no mundo. Até mesmo os narradores marginais que buscavam contestação política descobriram sua irrelevância. Livros são insignificantes pragmaticamente. E, ainda assim, os personagens de Bolaño continuam obcecados por livros, por escrever, por ler, por conhecer autores. A síntese proposta pela revista norte-americana n+1 sobre o universo do autor é certeira: "Os livros significam tudo e nada; o escritor é um herói e um idiota - se tornou uma das poucas atitudes literárias plausíveis hoje em dia."

Sempre que penso nesse "paradigma Bolaño" fico chocado. Uma época eu mantinha, em cima da escrivaninha onde escrevo, uma foto do autor, a foto clássica na qual ele parece um detetive de polícia. Tive que tirar a foto. A sua sombra era desesperadora.

ANTÔNIO XERXENESKY, UM DOS FICCIONISTAS DE DESTAQUE DA NOVA LITERATURA GAÚCHA, É AUTOR DO ROMANCE AREIA NOS DENTES (NÃO EDITORA, 2008; ROCCO, 2010), FINALISTA DO PRÊMIO AÇORIANOS DE NARRATIVA LONGA

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