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Sombra

Fernando caminhava pela rua calmamente voltando do trabalho. Estava cansado, mas não mais exausto do que qualquer outra quinta-feira. De onde estava, já podia ver sua casa, ainda que pequenininha lá no fim da rua.

FÁBIO PORCHAT, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h19

A lua estava redonda, amarela e, podemos até dizer, oferecida. Não chovia há pelo menos dez dias e, se dependesse desse céu, não havia planos de chuva tão cedo.

Fernando sempre caminhava de cabeça baixa, olhando pros próprios pés, porque não gostava de saber quanto faltava pra chegar. Gostava de se surpreender, de, de repente, já estar de frente para o portão de sua garagem. Às vezes até passava reto, tão compenetrado que estava nos bicos dos sapatos. E foi assim, que, no meio do fim do caminho, Fernando reparou em sua sombra. Ela era bem nítida e caminhava à sua frente. Ela seria a primeira a chegar. Mas após alguns segundos, ele se deu conta de uma coisa que o fez parar. A sua sombra não era sua. Ela era dele, porque era ele que gerava a sombra, mas o formato dela era diferente do seu. Ela obedecia aos seus comandos, mesmo quando ele tentou balançar as mãos rapidamente acima de sua cabeça para se certificar de que ela não tinha vida própria e que não era uma síndrome de Peter Pan que o assombrava, mas não tinha dúvidas: estava com a sombra de outra pessoa. Se aproximou do muro para tirar as medidas, ver mais de perto o que estava acontecendo e foi então que teve certeza: aquilo ali não era ele. Era muito parecida, tinha o formato muito semelhante à sua silhueta, mas era talvez um pouco mais alta, ou mais magra, ou até mais firme do que ele próprio. Ele tocava em sua sombra, como se aquilo pudesse fazê-lo entender melhor o que estava acontecendo, mexia nela. Queria alguém ali para lhe dar uma opinião. Será que era coisa da sua cabeça?

Encostou o corpo totalmente contra o muro de um terreno baldio tentando se emparelhar àquela sombra. Encaixava, mas parecia que sobrava um pouquinho. Resolveu ir logo pra casa e lá tomar alguma providência, mas como o incomodava aquele ser estranho ali. Era como se um desconhecido estivesse sempre um passo à frente de suas decisões.

Começou a imaginar há quanto tempo será que isso havia se estabelecido. Fazia tempo que não reparava em sua própria sombra. Será que convivia com isso há dias? E como foi que isso tinha acontecido? De repente, alguém estava com a sua sombra em algum lugar e também não tinha se dado conta.

Chegou em casa, abriu o portão e pegou a correspondência, sempre de olho nela, como que a vigiando para que não fizesse nada suspeito. Ligaria pra polícia? Pra emergência? Seu médico? Angustiado, tomou um uísque sentado na sala, totalmente no escuro. Pronto, agora não se via mais nada. Nem sombra nem nada. Três copos depois, adormeceu. Ali, na poltrona mesmo.

Quando acordou, o sol entrava por todos os lugares possíveis e parecia que tinha nascido apenas para abrir seus olhos. Ainda sonado, lembrou-se da sombra da noite anterior. Fechou os olhos e como que tentando se surpreender abriu rapidamente, na esperança de tudo ter voltado ao normal. A sombra continuava ali, idêntica, só que, agora, ao seu lado, havia uma segunda sombra, de uma mulher, gorda e velha. Tudo estava apenas começando.

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