Som vem da sua energia física, mental e espiritual

Ele sempre está no primeiro trem rumo ao desconhecido. Como neste incrível CD Towards the Unknown. Você ouve First Train e se surpreende pela voz macia e sopro estridente. Um minuto e meio de um blues primal em que canta: "Jamais sentimos as coisas do mesmo jeito." É, sua música está em permanente e serena revolução.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2011 | 00h00

Nem precisa reafirmar. Foi o primeiro a incorporar as escalas e modos das músicas orientais e indianas. Isso fica claro nos dois concertos de Towards the Unknown, gravado por Lateef em setembro de 2009 com o percussionista Adam Rudolph, e lançado no fim de 2010 (Meta Records). É uma troca de presentes de aniversário. Rudolph, seu parceiro há 21 anos, assina Concerto for Brother Yusef; e ele compôs Percussion Concerto (for Adam Rudolph).

Duas obras de fôlego. No concerto de Rudolph, uma seção de cordas acompanha o sax de Lateef distribuindo-se por seis partes curtas, entre 1"30 e 7 minutos cada uma. Nasceu num espetáculo em que Lateef recitou poemas acompanhado por percussão. Southside é um duo espetacular de tenor e percussão. Lateef chama sua música de "autofisiopsíquica": vem de sua "energia física, mental e espiritual". Em Reflections, terça lanças com as cordas; e na conclusiva A Better Day, beira o poema de protesto: "Tem gente que não tem o que comer"...

O concerto de Lateef é ainda melhor. Da gravação participam flauta, oboé, clarineta, fagote, trompa, trombone, piano e um quarteto de cordas. Ele escreve as partes - e joga os improvisos para Adam. São dois movimentos - o primeiro, de 20 minutos; e uma coda, de pouco menos de 6 -, em que o colorido dos timbres surpreende a cada intervenção. Aqui se percebe como Lateef preza a matriz afro-americana de pergunta-resposta, e adora intervalos dissonantes como os de segunda e terça menores e quarta aumentada, herança sadiamente contaminada com os modos orientais.

O patamar de invenção dessa música é alto: a exigência criativa de seus improvisos é tão rigorosa quanto a das músicas contemporâneas ditas eruditas. Por isso, um dos grupo que o acompanha é o S.E.M. Ensemble, regido pelo checo Petr Kotik, que desde os anos 70 se dedica "à música nova".

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