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Som a pino
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Som a Pino: 'Quem vai catar os cacos dos corações?'

Marielle Franco foi assassinada e nós estamos todos chorando desde então

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

20 Março 2018 | 02h00

Desde o dia 14 de março de 2018, um novo lugar foi aberto no meu peito. No peito de todas as pessoas do nosso País. Marielle Franco foi assassinada e nós estamos todos chorando desde então. Chorando por ela, chorando por nosso país, chorando por tanta injustiça, covardia...

Chorando, eu escutei a canção que Xênia França gravou sobre outra mulher e a mesma dor; chorando, eu escutei a canção de Luedji Luna e não paro de me perguntar a questão do título dessa coluna. Chorando, eu li e reli o poema de Tatiana Nascimento que coloquei um trecho aqui. Chorando, eu escrevi essa coluna, chorando eu vou ao ato hoje no Vão do Masp e, chorando, eu vou lutar pelo Brasil. 

BREU

A primeira canção que eu citei na abertura é Breu, música que está no primeiro disco da Xênia França, cantora e compositora baiana que lançou, no ano passado, seu primeiro trabalho solo. Breu é uma composição de Lucas Cirillo, feita após a notícia do assassinato de Cláudia Silva pela polícia militar do Rio de Janeiro. Marielle. Quando soube do assassinato de Cláudia, Xênia disse a ele como era difícil ser uma mulher negra no País. Marielle. Ele logo escreveu a música, essa frase ressoa no nosso país “Outra mulher, outro fim, mesma dor”. Marielle.

CABÔ

Outra canção é Cabô, de Luedji Luna, cantora e compositora que lançou no ano passado o disco Um Corpo no Mundo. Nascida no bairro do Cabula, em Salvador, e vivendo em São Paulo, ela canta “Quem vai contar os corpos? Quem vai catar os cacos dos corações? Quem vai apagar as recordações? Quem vai secar cada gota de suor e sangue, cada gota de suor e sangue...”.

MARIELLE PRESENTE!

E aqui um trecho do poema y now, frágil de Tatiana Nascimento: (mas eu sei ser trovão, e se eu sei ser trovão que nada desfez eu vou ser trovão que nada des faz)

nem a solidão

nem o capataz

estupro corretivo contra

sapatão a loucura da

solidão capataz queimarem

a herança

de minhas

ancestrais

arrastarem

Cláudia

pelo camburão

caveirão

111 tiros contra

5 corpos

111 corpos

mortos

na prisão

eu sei ser trovão?

que nada desfaz?

nem a solidão

golpistas contra a eleição

agronegócio

marido

padre

patrão

eu já fui trovão e se eu 

já fui trovão eu sei 

ser trovão!eu sei ser

trovão que nada,

nada desfaz

MÚSICA DA SEMANA - GOSTO SERENA - TAURINA

Sexta foi o lançamento do Taurina aqui em São Paulo, no Sesc Pinheiros, e Anelis Assumpção abriu o show com a voz de Marielle Franco: “Nossa voz muitas vezes silenciada terá de ser ouvida”. E, durante o show, a voz dela ecoava e também Serena Assumpção (irmã de Anelis, que faleceu) estava em todas as canções. Uma baita homenagem.

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