Divulgação
Divulgação
Imagem Roberta Martinelli
Colunista
Roberta Martinelli
Som a pino
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Som a Pino: 'Quem lê tanta notícia?'

Roberta Martinelli

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2016 | 03h00

“Imagina quantas vezes um artista responde à mesma pergunta? “Vamos ter de repetir coisas mil vezes ditas, que já nos cansam, cansam, mas que apesar disso considero que é um dever satisfazer a curiosidade do outro - que nem sequer é curiosidade, porque os jornalistas já sabem o que é que eu vou responder. É uma espécie de ritual, uma espécie de comédia que todos sabemos ser uma comédia, mas em que cada um de nós interpreta o melhor possível seu papel”, disse José Saramago. 

FUI TIRADA DO LUGAR 

Quando li um trecho do livro O Mau Vidraceiro de Nuno Ramos - indicação do cantor e compositor Romulo Fróes - que dizia o seguinte: “Abram os jornais. Mergulhem nas notícias. Afoguem-se com o vendaval no Oriente. Explodam com o homem-bomba no deserto do Sinai. Lugares, nomes de lugares. Gente, nome de gente. Notícias, cheiro de tinta. Tudo é tão confortável. Mas quem poderia compreender o que está escrito a ponto de padecer fisicamente, ferindo seu corpo e sangrando com aquilo que lê, durante o ato mesmo de ler? Um novo deus leitor, pregado na cruz do que está escrito. Este mostraria quanto vale uma palavra”.

Confesso que desde que comecei esta coluna tenho pensado nisso, como fazer com que o leitor tenha paixão pela música que eu conto aqui, como fazer com que mais uma dentre tantas novidades no mundo da música, da arte, seja importante para alguém? Hoje, com redes sociais, artistas lançam, transmitem entrevistas, todos podem escrever sobre tudo e no meio disso o que eu seleciono para contar pra você?

Nesse contexto, os meios de comunicação teriam que se adaptar aos novos formatos. A TV Globo, por exemplo, tem mania de trabalhar com exclusividade, o artista só pode dar entrevista em certos programas se não tiver ido em outro lugar. Não importa mais fazer primeiro, importa fazer direito, e por isso, proponho o debate. Quero que esse texto de alguma maneira não seja um apontamento de dedo para outros, é até fragilizar o meu próprio lugar. Como escrever algo que mostre o valor da palavra? Como escapar do papel que desempenhamos no ritual da entrevista?

E A ENTREVISTA QUE EU NÃO FIZ

E que gostaria muito de fazer depois de ler sua biografia é Rita Lee. O que eu perguntaria para uma pessoa que acabou de escrever uma autobiografia? Já pensou nisso? O livro começa com a música Coisas da Vida que tem aquele trecho “Depois que eu envelhecer, ninguém precisa mais me dizer como é estranho ser humano nessas horas de partida”. A Rita já me tirou do lugar em suas músicas, no livro, em shows... Quem é essa pessoa que faz isso? É preciso conhecer a pessoa mesmo ou eu posso ficar com o que ela quer me mostrar? Estou lendo a série de livros de Elena Ferrante, autora que não queria ser identificada e um jornalista descobriu quem era ela, escondida atrás de um pseudônimo. Repito: ela não queria ser identificada, queria que a obra ficasse na frente.

MÚSICA DA SEMANA

STEP PSICODÉLICO

Tatá Aeroplano

Faixa que dá nome ao terceiro disco solo do Tatá, uma parceria com Julia Valiengo e Dustan Gallas. Coloco aqui, pois na letra ele cita vários espaços culturais da cidade, festas, teatros, ciclovias e batom vermelho na boca dos meninos. Pedindo “eu quero mais!” e eu faço coro. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.