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Som a Pino: 'O Sol nas bancas de revista'

Novo disco do Chico saiu e consigo ouvir músicas políticas em quase todas as canções

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2017 | 02h00

Na madrugada de quinta para sexta-feira, 25, Chico Buarque lançou seu novo disco, Caravanas. Será que ele vai renovar a sonoridade? Precisa? Será que será um disco político? O que será que será? O disco é de amor, o disco é político, o disco é sobre o tempo, o disco é sobre idade. O disco vai surpreendendo até a última faixa. E que surpresa é a última faixa. Consigo ouvir canções de amor achando que são políticas. As metáforas são propositais? Ou ele nos faz ouvi-las mesmo onde não estão? Não sei e nem sei se quero saber. 

Estava com outra coluna pronta, mas um episódio me trouxe um aperto na garganta e um desalmado me fez chorar com uma mensagem agressiva no Facebook (ahhhh, mas isso é tão normal em 2017, né? Espero não me acostumar nunca), e depois uma música me trouxe um encantamento: As Caravanas.

O disco do Chico saiu e consigo ouvir músicas políticas em quase todas as canções. Música já é política. A arte, o gesto por si só já seria. Mas um artista com a importância de Chico Buarque para a música, o teatro, a literatura, a arte, para o Brasil, ser desrespeitado depois do posicionamento político foi algo que me tirou do sério. É inacreditável, mas “há que levar um drible por entre as pernas sem perder a linha”, canta Chico na faixa Jogo de Bola, falando sobre uma partida que jogou. 

Na canção que encerra o disco, essa que mais me encantou, As Caravanas, Chico coloca o embate entre os “suburbanos tipo muçulmanos” e a “gente ordeira e virtuosa que apela pra polícia despachar de volta o populacho pra favela”. Chico fala do Rio, mas fala do Brasil, um Brasil profundo, fala da luta de classes, fala da elite brasileira, europeia, americana, fala da ascensão fascista, fala de tantas culturas reprimidas. Chico entende o nosso país, os nossos conflitos e coloca isso em sua poesia, ou será que nós que colocamos nossa indignação na poesia dele e escutamos mais do que ele escreve? Será que escutamos em suas canções todos os seus gestos na luta por um país mais igual e mais justo?

Mas o que aconteceu? Por que no nosso Brasil as coisas estão assim? Por que, como dizem, “desde o 7 a 1 levamos um 7 a 1 por dia”? Ironicamente, Chico busca um motivo para tudo isso - “Sol, a culpa deve ser do sol / Que bate na moleira, o sol / Que estoura as veias, o suor / Que embaça os olhos e a razão”. Será esse um motivo para a razão estar assim embaçada? Tem que ter algum motivo para que a gritaria engrosse frases como: “Tem que bater, tem que matar” ou será que estamos ficando doidos? “Ou doido sou eu que escuto vozes / Não há gente tão insana”. 

Adoraria acreditar que não há gente assim tão insana, mas as linhas do jornal só me provam o contrário. E o Google, o Twitter, o Face, o Tinder, o WhatsApp, o Instagram...

MÚSICA DA SEMANA - 'O Samba É Meu Dom'

Música escolhida em homenagem a esse grande baterista, músico, sambista, pessoa iluminada que foi Wilson das Neves, que nos deixou na noite de sábado aos 81 anos de idade. Na coluna dedicada a Chico Buarque, ter uma homenagem para ele é muito forte. Ele tocou com Chico por quase 40 anos. Obrigada por tudo!

 

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