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Som a Pino: 'O microfone, meu megafone...'

A cantora e compositora Aíla levou para Belém, sua cidade natal, o Festival Mana

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2017 | 02h00

Dois discos foram lançados e não param de tocar por aqui. Discos que, não sei se intencionalmente ou não, mas foram gerados entre 2016/2017 e estão cheios de reflexos do nosso mundo em crise. Arte é política. 

Um deles, eu já falei nessa coluna, é o Boca, quarto disco do Curumin, com produção dele, Zé Nigro e Lucas Martins. A expectativa para ouvir o novo trabalho era grande, os seguidores dele estavam ansiosos e o disco superou. Já ouviu? Não? Então, corre lá.

O outro é o Galanga Livre do Rincon Sapiência. 

Começa com a introdução, um salve e “a música que foi inspirada no conto fictício do escritor Danilo Albert Ambrósio, que conta a história do escravo Galanga, que provocou uma grande reviravolta no engenho a partir do momento em que cometeu um crime bárbaro”.

Crime Bárbaro é a faixa que abre com os capangas armados à procura de quem matou o senhor do engenho. E ele corre com as rimas: “Mesmo estando em desvantagem, a sensação é de poder”. 

Segue Vida Longa, desejando longevidade à nossa voz ativa, parece óbvio... Mas bom frisar, né? Frases necessárias de 2017: “Nóis aprecia vida longa à democracia” e até as mais absurdas viram poesia “Brasil vai virar Cuba, essa notícia é falsa”.

Depois uma canção para a classe trabalhadora, A Volta Pra Casa, ônibus cheio, 2 horas na condução, receio do abuso do homem fardado, na bolsa a Bíblia e o canivete.

Meu Bloco entra com baterias de escola de samba e beats graves avisando que ele vem pesado como Rei Momo. A mistura segue com Moça Namoradeira com participação de Lia de Itamaracá, ela no lar, ele no bar. O machismo nosso de cada dia. 

Chegamos ao momento íntimo do disco com A Noite É Nossa, a noite do encontro. Amores às Escuras “o amor é incolor, porém não ignore, vejo grande beleza quando o preto colore”. A Coisa tá preta “ó que legal, se eu te falar que a coisa tá preta, a coisa tá boa, pode acreditar”.

Bênção é uma ode à liberdade, assim como Galanga Livre, faixa que dá nome ao disco, “rua nós vamos ocupar”. Ostentação à Pobreza, pois “a pobreza continua viva”. 

Esse discão encerra com Ponta de Lança. “Quando alguém fala que eu não sou um MC acima da média, eu falo...” Pra mim não precisa falar... Nota dez. 

Danilo Albert Ambrósio ou Manicongo ou Rincon Sapiência, rapper, cantor, poeta, produtor ou junta tudo em artista. Das 13 faixas do disco, 12 foram produzidas por ele, com coprodução, mixagem e direção do William Magalhães, da Banda Black Rio. “Nossa união é sinal de perigo, então vida longa aos bons amigos.” Vida Longa, Rincón!

MÚSICA DA SEMANA

A cantora e compositora Aíla levou para Belém, sua cidade natal, o Festival Mana (Mulher, Arte, Narrativas e Ativismo). Ela divide o comando do projeto com a artista visual Roberta Carvalho, sua sócia e parceira de vida. O festival vai até dia 3 de junho. Bela iniciativa.

 

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