Som a pino: 'Mirem-se no exemplo...'

Muitas coisas repetidas várias vezes estão erradas e nós vamos mudar isso

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2017 | 02h00

Sabe aquele sentimento que você (mulher) enfrenta desde que começa a dirigir, quando você vai parar o teu carro numa vaga estreita, ou num lugar um pouco mais complicado, fazer uma baliza daquelas e vários homens param na rua meio rindo, meio cochichando, duvidando de você? Esse é o sentimento que uma jornalista de música mulher tem quase todos os dias. Minha coluna é sobre música e isso não é um desabafo, mas uma constatação do que representa ser mulher jornalista na música. Esse é um relato pessoal e transferível. 

Que loucura que é escrever uma coluna. Eu venho do rádio e da televisão, essa é uma experiência nova para mim. Sem retorno imediato, sem que eu saiba o que pensa quem está aí do outro lado. Então tenho experimentado. 

Toda semana eu vou de show em show e tento viver na minha cidade (quando possível em outra) algo que possa render uma boa reflexão, algum pensamento, algo instigante (nem sempre consigo, mas é o que eu busco). 

Não bastasse esse intenso processo de criação, ainda recebo indiretas de “amigos” jornalistas homens o tempo todo. Coisas como “se quiser eu posso ser seu ghost writer”, “você faz muita coisa, não aguenta” ou “tem uma frase ali que deveria ser de outro jeito, deveria ser assim...”, “acho que você poderia ter menos opinião” ou até “não é assim que escreve”. 

Comecei a notar que minhas amigas jornalistas musicais (que estão em minoria no meio) nunca me falaram nada assim. E claro, não estou generalizando. Tenho vários amigos homens jornalistas que são maravilhosos. 

Estava lendo outro dia a transcrição da palestra de Chimamanda Ngozi Adichie no TedxHouston publicada pela Companhia das Letras com o título Sejamos Todos Feministas e lá encontrei as mesmas questões que passo sendo jornalista musical mulher. Ela conta desde o momento em que queria ser representante de classe e mesmo sendo a primeira aluna, o lugar foi dado a um menino. “Se repetirmos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe.”

Muitas coisas repetidas várias vezes estão erradas e nós vamos mudar isso. 

Talvez meus colegas não percebam o que falam, talvez repitam comportamentos, mas eu percebo que estou sempre fazendo uma baliza com um monte de cara duvidando de mim e sinto informar, eu nunca desisti de uma vaga por isso. Se eu não quisesse enfrentar os risinhos não sairia de casa. Eu tô na rua e a vaga é minha. 

LANÇAMENTO

DO AMOR

A banda Do Amor lança no dia 14 de Abril o disco Fodido Demais. A banda é formada por Gustavo Benjão, Ricardo Dias Gomes, Marcelo Callado e Gabriel Bubu. O segundo single a ser lançado do disco tem participação de Arnaldo Antunes e chama Frevo da Razão. Se você quiser ver de perto tem show no sábado dia 15 de Abril no Sesc Pompeia aqui em São Paulo. Eu vou. 

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