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Som a Pino: 'Mas é preciso ter força...'

A música não tem lei de fomento e poucos incentivos de políticas públicas e é isso que alguns grupos estão tentando fazer acontecer

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2017 | 02h00

Todos já sabem do congelamento de 43,5% da verba destinada à cultura na cidade de São Paulo. Arte não deve e não pode ser vista como artigo de luxo. Lembro sempre de uma lenda urbana que diz que representantes de cultura, educação, saúde se encontraram para pedir recursos e diante de pedidos de merendas e remédios, o secretário da Cultura diz “deixa pra lá”. Não sei se isso aconteceu, mas me parece um pensamento recorrente e não, não vamos deixar pra lá. 

VAMOS CONVERSAR?

Começou no dia 27 de janeiro de 2017 o programa Secretaria da Cultura Escuta, criado pelo secretário municipal de Cultura André Sturm. A ideia é criar um espaço de conversa com cada segmento artístico. Já participaram das reuniões: Hip-Hop, Dança, Teatro e na terça-feira passada foi a vez da Música. “A ideia não é segmentar, mas desenvolver um diálogo com cada área”, disse o secretário logo na abertura da conversa que aconteceu na Sala Adoniran Barbosa no Centro Cultural São Paulo.

Diálogo proposto. Temos muito o que conversar, claro. A música não tem lei de fomento e poucos incentivos de políticas públicas e é isso que alguns grupos estão tentando fazer acontecer.

Aí a discussão maior: é papel do governo fomentar a arte? E para mim (e espero que para todos) SIM, a cultura faz parte do desenvolvimento humano, é educação, é saúde e digo mais, é até segurança. Eu acredito fortemente que com a cultura podemos construir um mundo melhor, um mundo possível. Cultura é fundamental para a formação.

 

Na reunião de escuta com a música encontrei muitas produtoras, alguns jornalistas, assessores, artistas de rua, representantes de outras artes, mas eu fiquei esperando ver cantores, cantoras, músicos. E onde eles estavam?

 

O que faço aqui hoje é uma convocatória para os artistas da música. Não quero apontar o dedo, nem julgar ninguém. Mas precisamos nos unir, precisamos mesmo. O tempo que vivemos pede isso. A hora é de mobilizar. Hora de deixar questões individuais e abrir para a discussão política.

O que São Paulo precisa para ter mais cuidado com a música? Leis? Palcos? Mais apoio para as casas de música autoral? Quantos espaços foram fechados nos últimos tempos? Quantos artistas poderiam ter mais alcance e condições de desenvolver seu trabalho? E o papel da música na formação de jovens? E a música na rua?

 

Uma das pessoas na reunião levantou, foi ao microfone e começou a questionar a contratação do artista X (o nome foi citado na reunião e não vou repetir aqui) pela Secretaria Municipal de Cultura não sei quantas vezes. E aqui eu vejo a individualização da questão. Mais importante seria saber o caminho que este artista percorreu e tentar aprender com ele como espalhar outros sons. Mas para isso, precisamos conversar, articular, participar de movimentos. A reunião desse dia foi com a música, mas a situação atual atinge toda a Cultura. E para isso já foi criada uma Frente Única com encontro na segunda passada no Galpão do Folias.

 

O congelamento gigantesco da verba destinada à cultura afeta a produção artística e a formação de pessoas. O que é uma cidade sem arte? Qual a trilha sonora de uma cidade que coloca a arte em segundo plano? O que é o mundo assim? Definitivamente, não é o mundo que queremos. Sei disso. Mas para isso mudar, “é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre”. 

Cultura não congela. 

Cultura é investimento. 

Cultura é coletivo.

Cultura é fundamental. 

Nunca deixaremos isso pra lá.

MÚSICA DA SEMANA

SARACURA - Aláfia 

Faixa do recém-lançado disco SP Não É Sopa - Na Beirada Esquenta. A música foi composta pelo produtor do disco Eduardo Brechó (integrante da banda) e cita o saudoso Amado Maita que tem um disco raro e lindo de 1972 e é pai da cantora e parceira dele na música, Luisa Maita.

 

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