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Som a Pino: 'Lembra que tempo feliz...'

Tom Jobim completaria ontem 90 anos caso cá estivesse

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2017 | 02h00

Voltei de férias hoje! Como a gente muda nesse período né? Estive no México e me surpreendi muito com tudo. Cores, sabores, lutas, povo, cultura... Que forte é o México e como eles valorizam o que é deles. Tem um pouquinho de Brasil iá iá... E confesso que passei 20 dias pensando “qual vai ser minha coluna de volta? Vai ser sobre música mexicana? Sobre cores?”. Não, decidi falar sobre o que mais aprendi por lá: valorizar a minha própria cultura.

Tom Jobim completaria ontem 90 anos caso cá estivesse. Ele apresentou um programa na TV Manchete - isso no tempo em que a televisão gostava mais de qualidade do que de audiência - e tem um episódio que ele entrevista o grande arranjador, compositor e pianista Radamés Gnattali. No começo do programa Tom diz: “O que me contaram de você Radamés é que você ia ser concertista, ia lá pra Europa tocar piano?”. E ele responde: “Meu sonho era ser um concertista, mas... tinha que trabalhar pra viver, tocar em baile, tocar em orquestra e não deu...”. Tom diz: “Eu acho que foi muito bom que você ficasse no Brasil e que fizesse essa música toda que você fez. Radamés é um tremendo compositor”. Ele, um dos maiores arranjadores do Brasil, meio resignado na entrevista, pois não foi concertista. Em vez de seguir um paradigma europeu ele fez coisa nossa, música brasileira. Jobim, mesmo sendo esse cara internacionalmente tão conhecido, valorizou e muito o Brasil. E não só nesse comentário.

Na comemoração dos 90 anos de Tom Jobim me deu vontade de escrever uma Carta ao Tom de 2017:

Tomzim querido,

Escrevo para contar, pois agradecer pela sua obra não caberia nesta carta (até porque é uma coluna de jornal e tem limite de toques).

Eu sempre defendo a música brasileira. Acredita que aqui em 2017 não temos mais quase nenhum programa de televisão de música? Temos realitys, competições com playback, que são vendidos como música, mas sabemos que não são. Não gosto de ser saudosista e não gosto de quem usa a frase “antigamente era diferente”. Lógico que era. Mas confesso que lidar com essa parte é complicado. Te contei isso pois estava revendo teus programas. De música.

 

E já que estou lembrando da Carta ao Tom 74 penso no disco Canção do Amor Demais disco que reunia você e Vinícius, que te escreveu uma vez da França em 1964: “Fiquei muito contente com o sucesso de Garota de Ipanema nos Estados Unidos. Vamos ver se dessa vez os intermediários deixam algum para nós”. Hoje, na música independente, estamos com menos intermediários, você deve pensar “que sorte”, mas em contrapartida temos que fazer um trabalho de luta e resistência para conseguir espalhar nossa música, é mesmo um trabalho de formiguinha. 

As coisas aqui no Brasil não estão muito bem. Nosso povo anda triste. Cabisbaixo. Não quero que ache que não temos mais felicidade, mas ando com medo dessa tristeza não ter fim.

E qual a solução? Loucura ou não, ela já foi cantada nessa carta que Toquinho e Vinicius fizeram pra você e eu, claro, não me arrisco a fazer melhor, vou é repetir: “É preciso inventar de novo o amor”. 

Podemos começar logo?

Música da semana

Baianidade Nagô - Daniela Mercury

Recomendo fortemente o documentário Axé - Canto do Povo de Um Lugar em cartaz nos cinemas, dirigido por Chico Kertész. Uma aula de música brasileira. E ainda dá vontade de passar o carnaval na Bahia e cantar bem alto “eu queria que essa fantasia fosse eterna”. 

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