Eduardo Nicolau/Estadão
Eduardo Nicolau/Estadão

Som a Pino: 'Eu ando pelo mundo...'

Nas minhas festas de 1, 2, 3 e 4 anos, meus pais chamaram minha banda favorita pra tocar, eu sempre queria eles na festa, os 'Corujitos'

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2017 | 02h00

Cada dia, eu fico com uma música na cabeça e, normalmente, tem muito a ver com o que estou vivendo. Acho que todo mundo tem isso, não? Cantarola por aí o momento que vive. E depois o momento fica marcado pela música e, toda vez que a música toca, o momento volta. Às vezes, acho que canto o momento para prendê-lo de alguma maneira a uma música e, assim, poderei reviver isso quando for surpreendida pela canção tocando no rádio, na rua ou numa festa ou quando eu quiser colocar o momento para tocar. 

Nas minhas festas de 1, 2, 3 e 4 anos, meus pais chamaram minha banda favorita pra tocar, eu sempre queria eles na festa, os “Corujitos”. Os integrantes iam vestidos de coruja e cantavam músicas como Balão Mágico. Já procurei sobre a banda na internet e não acho nem uma pista...Não posso dizer que lembro das festas. Mas lembro que me contaram delas e através de fotos construí uma lembrança (talvez não tenha nada a ver com a realidade).

Nas festas da escola, no jardim de infância, lembro que todo fim de ano tocava Canção da América, de Fernando Brant e Milton Nascimento, e eu tinha uma vontade louca de chorar, mas segurava. Não queria chorar na frente dos meus amigos. Ficava com dor de cabeça de tanta força que fazia para não derramar uma lágrima (acho que por isso que fiquei tão chorona). 

Depois: um acampamento de uma semana com o pessoal da escola e noites temáticas. Na noite de gala tinha que ir de dupla jantar de vestido chique (na noite anterior, que era do avesso, eu coloquei o sapato trocado caí e me ralei toda) e na noite mais esperada, que era essa de gala, o Beto, minha dupla, brigou com outro menino e ficou de castigo. Tive que jantar sozinha no meu primeiro encontro. A música que tocava era Frank Sinatra com L.O.V.E (piadas da vida). 

Quando estudava teatro, a cada semestre apresentávamos uma peça e um dia, véspera de estreia, o grupo todo junto pintando cenário, tensos, ansiosos, em crise (coisas de véspera) e de repente tocou no rádio Maria Rita cantando Menina da Lua. Todo mundo parou, chorou. Essa música ainda é difícil de ouvir sem sentir falta de um momento da vida em que tudo ainda era possibilidade e que 17 jovens de um grupo de teatro acreditavam que iam mudar o mundo com arte. “Leve na lembrança a singela melodia.”

Meu sogro morreu no ano passado, o artista plástico Ivald Granato (que saudades) e no enterro os filhos colocaram Like a Rolling Stone. Pra sempre vai ser impossível ouvir essa música sem chorar. Cada dia, cada grupo, cada vivência uma música. Ando por aí colecionando trilhas para prender momentos. 

MÚSICA DA SEMANA - ABSURDO 5

Não sabia qual absurdo escolher dentre tantos. O disco do mais novo projeto que reúne Juçara Marçal, Rodrigo Campos e Gui Amabis com letras de Nuno Ramos, Sambas do Absurdo. O projeto começou com o livro O Mito de Sísifo, de Albert Camus, e o quanto é absurdo viver! Ótimo disco. 

 

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