Solo sagrado de chega aos 40 anos

O Estúdio Electric Lady, um reduto psicodélico com paredes curvas, desafiou o tempo e se mantém na ativa

Ben Sisario THE NEW YORK TIMES NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2010 | 00h00

 
Instalação foi aberta menos de uma mês antes de sua morte. (AP Photos)
A alguns passos dos cachorros-quentes da lanchonete Gray"s Papaya, em meio às lojas baratas de Greenwich Village cujas vitrines oferecem CDs usados e certos tipos de narguilés de vidro, é fácil passar desavisadamente pelo número 52 da West Eight Street. Há apenas uma pequena placa para identificar aquele solo sagrado musical: as instalações do Electric Lady Studios.

Fundado por Jimi Hendrix em 1970, a partir de um velho e degradado clube noturno chamado Generation Club, o estúdio era algo estranho para a época. Em vez de seguir o modelo tradicional dos demais estúdios - um grande caixote impessoal administrado por engenheiros de som conservadores -, a criação de Hendrix era um reduto psicodélico, com paredes curvas, uma criativa iluminação multicolorida e murais de ficção científica erótica para estimular o fluxo da criatividade.

Hendrix morreu no dia 18 de setembro de 1970, menos de um mês após a festa de inauguração, realizada em 26 de agosto, mas deixou como legado armários cheios de fitas com material registrado durante as sessões de gravação, e a lista de grandes nomes da música que já trabalharam no Electric Lady inclui os Rolling Stones, o Led Zeppelin e Stevie Wonder. No dia seguinte à abertura da casa, Jimi fez lá a sua última gravação, pouco antes de embarcar para Londres, onde participaria do Festival da Ilha de Wight, no dia 30.

Há outro aspecto do Electric Lady que se mostrou incomum: o estúdio resistiu ao tempo. Como destacou um grupo de engenheiros de som e produtores durante a celebração do 40.º aniversário do local, no mês passado, a maioria dos demais grandes estúdios de Nova York - Hit Factory, Record Plant e Sony Music Studios, por exemplo - fechou as portas nos últimos anos, vítimas das dificuldades financeiras da indústria fonográfica ou das pressões imobiliárias, mas o Electric Lady desafiou as probabilidades ao sobreviver, mantendo-se entre os melhores do mundo.

Eddie Kramer, engenheiro de som de quem Hendrix mais gostava e força ativa na criação do estúdio, oferece uma explicação simples para a longevidade do Electric Lady. "Numa só palavra: clima", disse ele, sentado numa pequena antecâmara ao lado da cabine de controle de uma das três salas de gravação. "Queríamos proporcionar um ambiente no qual Jimi pudesse se sentir extremamente feliz, e tivesse a sensação de ser capaz de criar qualquer coisa. Era um lugar maravilhoso, como um útero", acrescentou. "Era onde ele podia se sentir totalmente relaxado e compor a música que quisesse."

O sul-africano Kramer, cujo cabelo penteado para trás, cavanhaque bem definido e comportamento meticuloso não proporcionam nenhuma indicação de seu currículo - ele já trabalhou com gigantes do rock como Led Zeppelin, Kiss, Rolling Stones e muitos outros -, celebrava os méritos do Electric Lady num debate organizado pela Sociedade dos Engenheiros de Som.

Como o próprio Electric Lady, a reunião foi um ótimo exemplo de grandes celebridades escondidas bem diante dos olhares de todos, repleta de nomes envolvidos na gravação de alguns dos álbuns mais famosos e festejados dos últimos 40 anos, mas cuja participação e importância o grande público desconhece.

AC/DC. Sentados ao lado de Kramer no Estúdio A, a subterrânea câmara principal do Electric Lady - que conserva as paredes arredondadas originais e o teto em espiral -, estavam Tony Platt, que em 1980 mixou Back in Black, do AC/DC, naquela sala; John Storyk, o arquiteto e perito em acústica que projetou o estúdio; e a dupla Robert Margouleff e Malcolm Cecil, os magos do sintetizador recrutados por Stevie Wonder no início da década de 1970. Entre os cerca de 80 profissionais da música presentes no encontro, estes nomes famosos entre poucos ofuscaram dois outros participantes mais conhecidos do grande público: Lenny Kaye, guitarrista do Patti Smith Group, e Janie Hendrix, meia-irmã de Jimi.

Com o sentimentalismo e a precisão dignos de engenheiros de som de longas carreiras, eles contaram histórias de guerra no front do estúdio (o amplificador de Jimi ficava ali, junto à parede; o baterista de Stevie gostava de se instalar daquele lado); extraíram suspiros da plateia com uma apresentação de fotos retratando antigos consoles de mixagem; e tentaram determinar qual era o aspecto do Electric Lady que conferia ao estúdio sua atmosfera única. O espírito de seu fundador foi citado mais de uma vez, bem como a mistura entre tecnologia e clima convidativo.

Keith Richards. "Todos os estúdios que vemos hoje partem do princípio de oferecer um ambiente amigável para a produção da arte", disse Margouleff, contendo as lágrimas. "Esta foi uma das principais invenções do Electric Lady." Para muitos artistas, o estúdio de Hendrix se tornou um segundo lar. A porta para o banheiro do andar de cima tem um pequeno buraco, grande o bastante para acomodar um cabo nos momentos em que Keith Richards quisesse editar suas sequências de guitarra na privacidade mais reservada possível. Para Jimmy Page, o toque pessoal de Hendrix e Kramer fez toda a diferença quando o Led Zeppelin trabalhou na mixagem de Houses of the Holy naquele estúdio, em 1972.

"Eddie Kramer era um engenheiro de som excelente", afirmou Page em entrevista concedida pelo telefone. "Para trabalhar num estúdio que levaria o nome de Hendrix, ele garantiu que o lugar fosse atraente e dotado de uma boa acústica, para que os músicos quisessem tocar naquele cômodo." Mas, no universo dos estúdios de gravação, no qual tempo é dinheiro e a inspiração precisa fluir ao longo de repetidas tomadas, até fatores intangíveis como o clima têm uma função específica, e os princípios por trás do projeto do Electric Lady se tornaram populares atualmente.

Storyk explicou que, além do clima e da iluminação, Hendrix fez pedidos que representaram mudanças visionárias para a arquitetura dos estúdios, como salas de controle grandes o bastante para acomodar simultaneamente artistas e engenheiros de som, possibilitando que trabalhassem juntos com mais conforto. Tais planos, somados a complicações como o lençol freático muito próximo do subsolo do edifício, significaram um processo de construção prolongado e caro.

O alvará original de construção do estúdio emitido pela prefeitura de Nova York estima o custo da obra em US$ 125 mil, mas Storyk lembra que o valor final chegou a US$ 1 milhão. Depois de projetar o Electric Lady, aos 22 anos, Storyk foi o responsável pela arquitetura de muitos estúdios e casas de espetáculo espalhados pelo mundo.

"Era a primeira vez que um artista construía um estúdio. Isso estava ocorrendo em alguns casos isolados pelo mundo, mas nenhum daqueles projetos era tão famoso quanto o de Jimi", revelou Storyk. As inovações do Electric Lady com vista a um melhor aproveitamento por parte do artista - acompanhadas pela mística de Hendrix - ajudaram o estúdio a sobreviver a uma era em que as grandes instalações multifuncionais de gravação cedem espaço para salas menores e de foco mais definido.

Clapton. Ecoando o seu modelo, muitos estúdios novos, como o Roc the Mic, de Jay-Z, em Manhattan (projetado por Storyk), são criados para atender às necessidades específicas de um músico. Entre os artistas que gravaram recentemente no Electric Lady estão Eric Clapton, Coldplay, Rihanna, The Strokes e Sheryl Crow. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

QUEM FOI

JIMI HENDRIX

GUITARRISTA, CANTOR

E COMPOSITOR

Chamado de o maior guitarrista americano de rock de todos os tempos, Johnny Allen Hendrix nasceu em 1942. Como era canhoto, usava guitarra de destros virada ao contrário. Entre suas influências estão B. B. King e seus antepassados indígenas. Morreu aos 27 anos, em Londres.

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