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Solitários entre monstros

A reação excessiva mostra que há algo mais do que a divergência política

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

14 de junho de 2017 | 03h00

Há uma cena impactante em Eu Sou a Lenda (direção de Francis Lawrence, 2007). A humanidade, para quem não viu o filme, foi dizimada por uma praga. Todos os infectados ficam irracionais, agressivos e incapazes de enfrentar a luz do dia. Em uma Nova York deserta, apenas um solitário médico humano não atingido passa os dias lutando para encontrar uma cura. 

O pesquisador (Will Smith) descobre, enfim, o remédio definitivo. Ao mesmo instante, como costuma acontecer em narrativas ficcionais, chegamos ao ponto máximo do ataque dos seres a sua casa. Com a solução definitiva na mão, através de uma espessa parede de vidro, ele se vê cercado por centenas de monstros que se batem contra a estrutura. Em desesperada tentativa de diálogo, o doutor exibe o frasco e exclama: Existe a cura! 

Ninguém o ouve. Nem tenta. Talvez a doença atrapalhe a compreensão ou, mais provável, a raiva homicida das criaturas não seja um mal para elas nem desejem combatê-la. Ele chora e aceita a impossibilidade de diálogo que levará ao desenlace.

Quando vi o filme, imaginava, apesar de o livro de origem ser antigo (I am Legend, 1954, Richard Matheson), tratar-se de uma metáfora americana do mundo fundamentalista islâmico, por exemplo. Intuí que a obra era uma crítica à ideia de diálogo entre o Ocidente e seus valores contra a horda, os irracionais, os outros, notavelmente fundamentalistas. De um lado, norte-americanos e sua ideia de liberdade e respeito a diferenças, do outro, seres incapazes de conversar. Era uma recusa da diferença.

Talvez o filme esteja certo. Que diálogo teríamos com uma liderança do Estado Islâmico? A existência dele é baseada na exclusão do outro. É impossível existir, naquele modelo, sem ódio. O discurso e a prática dependem da exclusão. Como o Deus autoritário do Evangelho Segundo Jesus Cristo de Saramago, o diabo é essencial para o poder celeste. Sem o demônio (Ocidente), não se edifica o poder dos guerreiros fanáticos, no exato sentido grego da palavra fanático: aquele que se diz inspirado pelos deuses. 

Vou problematizar. Que espaço de negociação poderia existir para os franceses quando invadidos pelos alemães, em 1940? Quase todas as vezes que os indígenas dos Estados Unidos negociaram um acordo de terras e depuseram armas no século 19, foram enganados com uma nova opressão. No caso, o diálogo é conveniente ao lado mais forte e uma estratégia equivocada para o dominado. Concordo com a ideia: nem sempre é possível negociar ou conversar. 

O que tem chamado minha atenção, especialmente pelas redes sociais, é que minha defesa do diálogo político pode ser amplamente debatida e contestada a partir de argumentos como identifiquei no parágrafo anterior. Sempre podemos lembrar que a concessão ao inimigo, como na Conferência de Munique, em 1938, é uma maneira de conceder tempo e poder para que esse adversário se prepare mais e, quando for conveniente, ataque com toda força. No caso de Munique, ao aceitarem a criminosa invasão dos Sudetos, França e Inglaterra praticaram a Política de Apaziguamento que foi favorável aos nazistas e que levaria, no ano seguinte, à guerra. Hitler se assemelhava às criaturas do filme Eu Sou a Lenda. Diplomacia, com fascistas, é capitulação. 

Como eu disse, o argumento do diálogo ou do pacifismo pode ser questionado ou defendido a partir de muitos exemplos do passado. Concordo com o Segundo Tratado sobre o Governo Civil, em que Locke defende, diante de governos autoritários e despóticos, que é legítimo (aos olhos de Deus, diz o inglês) o direito à rebelião. Porém, o que mais me chama a atenção é um novo tipo de argumento contra o diálogo no Brasil do outono/inverno de 2017. 

Os que se identificavam mais à esquerda, os inimigos de Temer e defensores da ideia de que houve um terrível golpe contra Dilma, os adversários da reforma da Previdência e trabalhista, afirmavam de forma absoluta: não é possível negociar com reacionários que só querem destruir os trabalhadores e suas conquistas. Só a linguagem da força, do ataque direto, da pressão decidida seria ouvida.

Não pode existir conversa com golpistas e Temer deve ser expulso do poder. Por esse raciocínio, ao defender o diálogo e a paz, estou contra os trabalhadores e seus direitos. Se fosse uma aula de silogismo...

Os que tinham mais afetos pelo pensamento oposto mandavam textos e argumentos para mim: “Professor, como negociar com pessoas cujo único objetivo é destruir o Brasil e ficarem se aproveitando das tetas do Estado? Eles são todos vagabundos treinados em Cuba, arruaceiros e desocupados. Não se pode conversar com um esquerdopata!”. Pelo mesmo erro indutivo do polo oposto, se defendo que o Estado não desça a marreta em manifestantes de esquerda e que dialogue com eles, sou convidado a comprar passagem para a mesma ilha do desterro caribenha.

Recebo agressões dos dois lados. Isso é irrelevante. Há, porém, muitas mensagens não agressivas, apenas argumentando que o obstáculo do diálogo está no outro. Alguns tentam me atrair a sua causa, movidos, talvez, por certa simpatia. Todos os polarizados concordam com uma coisa: o outro é o obstáculo e a barreira a qualquer coisa civilizada.

A chamada polarização apresenta vários efeitos. Ela costuma esmigalhar a inteligência do debate. Todo argumento é pessoal e qualificativo. O recurso falacioso do ad hominem é absoluto. A abundância de adjetivos e de superlativos em uma conversa poderia ser indicativo seguro de que o passional superou o racional. Outro efeito é o tranquilizador: o mal está do outro lado.

O que de fato estamos discutindo quando berramos Fora Temer ou Lula na cadeia? Claro, podemos estar expressando o legítimo direito democrático de dizer para onde queremos enviar nossos desafetos. O slogan faz parte da política e da democracia. Volto à pergunta: o que, de verdade, estamos dizendo quando berramos? A reação excessiva e com o fígado, digo há tempos, mostra que há algo mais do que a divergência política. Muitos dos que hoje gritam Fora Temer se moveram apenas na internet, sem muito entusiasmo, quando Dilma sofreu o impeachment. Outros que bradaram que não dormiriam enquanto a corrupção não fosse erradicada do Brasil parecem ter ajeitado confortavelmente o travesseiro diante de reformas do Estado que satisfazem seus interesses. O que realmente dizemos com nossos slogans?

Está cansativo o jogo do “meu ladrão é mais legal do que o seu”, ou, o “nosso lado é vítima da Globo, da Folha e do Estadão”, ou “nós somos pacíficos, os outros que começaram, ou só nós somos o futuro do Brasil”. Está muito cansativo mesmo. 

O sistema político brasileiro esgotou-se. Há pouca crença de que seja, de fato representativo. Isso talvez seja muito mais grave do que discutir qual o perfil que desejamos no Palácio do Planalto. 

Nas sombras de um debate de surdos que desfoca da ética e centra na orientação ideológica, surgem ogros com ideias verde-oliva. Do esgotamento da política emerge a ideia da força. É um filme antigo, repetitivo e que parece nada ensinar ao povo de Pindorama.

Escrevo isso e volta à memória a cena descrita de Eu Sou a Lenda: Os monstros estão se batendo no vidro e quem busca algum remédio ou alívio efetivo é classificado como alguém em cima do muro. Boa semana para todos. 

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